Chegando no cume

Abrindo o ano de 2009 no Tronador

Partiu! Partiu!

Dois e o objetivo
O objetivo

Tínhamos algumas opções, mas optamos por voltar para Bariloche e aguardar o tempo melhorar. Além disso, poderíamos esperar por Arthur Estevez, que lá estava com todo equipamento, mas sem parceiro, e com a mesma montanha na cabeça.

Arthur só poderia iniciar a empreitada no dia 30, quando se despediria de sua avó que o acompanhou em parte de sua viagem.
Já tínhamos idéia da maior dificuldade que enfrentaríamos: os trinta metros finais, que, principalmente no mês de dezembro, se encontram muito secos, sem gelo  e com desmoronamentos constantes. Por isso procuramos um conhecido de Arthur, chamado Nadir. Este jovem escalador de Bariloche nos deu um curso a respeito da montanha, além de mencionar o nome de um guia do Clube Andino de Bariloche chamado Maurício e que estaria no refúgio Otto Meiling e poderia dar nos informações importantes.
Depois de cinco a seis horas da trilha repleta das grandes moscas chamadas Tábanos, que picam para sugar sangue, estávamos nos arredores da construção que funciona como abrigo para os montanhistas. Ao fundo, a bela montanha com seus três cumes de gelo e pedra: O Cume Chileno, o Internacional, com seus freqüentes e assustadores desmoronamentos e o cume Argentino, que buscávamos.
Trilha
Logo que chegamos, fomos procurar o guia Maurício para tentar obter qualquer informação adicional. Maurício tinha a cabeça raspada e uma trancinha que lembrava um hare khrishna. Soubemos então, através dele, que não precisaríamos subir o Filo de La Vieja, pois havia caminho contornando a sua base. Subir esta crista nos obrigaria depois a fazer um rapel pela sua lateral. Ao mencionarmos uma rimalha de gelo próxima ao cume, indicada por Nadir, onde poderíamos fixar proteções e nos protegermos das pedras desmoronando como numa marquise, o guia respondeu:
-Rimalla? Cual rimalla? Está tudo seco.
O rapaz falou ainda que nem eles subiam mais ao cume, levavam os clientes somente até o colo. Meio desanimados, agradecemos e fomos resolver o que fazer.Glaciar
Decidimos que não o escalaríamos no dia seguinte, descansamos e fizemos um treino-brincadeira nas gretas do Glaciar Castaño Overa que fica próximo do refúgio.

 

A Festa

A noite chegou e fomos nos preparar para dormir mais cedo, apesar de durante todo o dia estar rolando festa de fim de ano no Abrigo Otto Meilling com direito até a música ao vivo ao ar livre durante a tarde. Adriana infelizmente desistiu da escalada e foi aconselhada pelos guias a nos pedir que não subíssemos ao topo. Que ficássemos somente a 20 metros do cume. Às 22:00 hs eu e Arthur nos deitamos na barraca e dormimos. Acordamos horrorizados com o estrondo de fogos que pareciam estourar ao nosso lado por volta de meia noite. Provavelmente armaram a queima muito próximo de nossa barraca, que ficava mais afastada das outras. A cada explosão em baixo, seguia-se outra no alto e ruído de pólvora caindo na lona da barraca. Aquilo nos deixou enfurecidos e temerosos de que alguma fagulha incendiasse o nylon e nos queimasse lá dentro. Após vários minutos de tensão e barulho, a queima cessou e consegui voltar a dormir sem desejar feliz ano novo a ninguém. Às duas da manhã acordei novamente para me preparar para a escalada. Arthur não tinha mais conseguido voltar a dormir. Adriana vinha do refúgio para nos acordar e desejar boa subida.
Após aprontarmos, foi preciso passar no refúgio para buscar o monóculo que estava na mochila dela, e encontramos uma danceteria lá dentro, com luzes coloridas iluminando uma pista de dança e música eletrônica. Alguns que estavam na festa nos olhávamos como se nós fôssemos os alienígenas.
Começamos a caminhar pela escuridão da noite subindo a grande colina nevada nos fundos do abrigo deixando pra trás o som e as luzes da festa cada vez mais distante.
Seguimos o rastro de passos e a direção indicada por Nadir e fomos tomando a esquerda, cruzando algumas bonitas gretas que começaram a surgir próximo da primeira crista.
Agora caminhávamos, contornando a curva de nível de um grande vale branco, bem iluminados pela abundante luz azul da lua cheia. Subimos uma nova rampa. A essa altura, Arthur seguia a frente e, cheio de disposição, me puxava pela corda, quando o meu ritmo diminuía.
Cordada
Agora estávamos Chánuma grande parte plana e o cansaço me impelia a parar alguns minutos. Mas um ventinho suave corria, nos deixando gelados. Seguimos então andando rumo a uma subida que nos levava ao colo dos Picos Internacional e Argentino. No meio desta subida eu quis parar novamente, pois estávamos com um ritmo muito forte e minhas pernas pediam trégua. A essa altura, Arthur começou a sentir falta de  preciosas horas de sono perdidas e mostrou um certo abatimento. Nesse ponto, nenhum vento corria e o sol começava a nascer na direção de Pampa Linda, sua luz quente aos poucos tornava o cenário alaranjado e vivo e nos aconchegava.
Duas coisas me incomodavam, um atrito no calcanhar ameaçava formar uma bolha e um fecho de plástico duro nas costas das minhas luvas me machucava. Convenci Arthur a tirar vinte minutos de cochilo para se reanimar enquanto eu providenciaria alguns reparos. Coloquei um pedaço de Silver Tape no pé e passei o canivete nos dispositivos plásticos das luvas, tapando o furo também com a fita prateada. Quando terminei o Serviço, vi que Arthur dormia tão agradavelmente que resolvi descansar um pouquinho também. Estendi minha mochila de ataque na neve como se fosse um colchonete e deitei em cima. O clima estava tão gostoso que mergulhei num profundo sono, só interrompido por Arthur:
-Partiu! Partiu!
Naquela hora, acordando repentinamente, pensei que dormia na barraca e que precisava me aprontar para começar a escalada! Quando me dei conta, já estava no meio dela!
Chegando no cume
Chegando no cume

Retomamos a caminhada, revigorados com a curta soneca e com o sol que nos aquecia. Cruzamos gretas maiores e menos dignas de confiança, alcançamos o colo e tomamos a direita. Vencemos uma greta que possuía a sua borda oposta mais alta e entrávamos na encosta do Pico Argentino. Esta ladeira era mais íngreme, o que nos fazia utilizar o piolet como um apoio mais importante. além disso, podíamos reparar que o caminho era entre agora pequenos penitentes – formações parecidas com estalagmites – de um metro de altura e toda salpicada de rochas de todo tamanho, que voaram do cume rochoso.

A cada quinze minutos nos assustávamos com os estrondos dos desmoronamentos do Pico internacional. Dali das encostas do Pico Argentino, assistíamos bem de frente aos enormes blocos rolando e se espatifando em meio a uma nuvem de poeira.

 

Cume

rimalha
Rimalha
Seguimos um caminho marcado no gelo até nos depararmos surpresos com a rimalha em forma de marquise bem abaixo do último lance de pedra para o cume! A felicidade foi instantânea: teríamos a possibilidade de fixar parafusos no gelo e uma cobertura para pedras que rolassem sobre o segundo que ficasse abaixo. Decidimos que Arthur continuaria a frente neste último trecho. Ele tinha muito mais habilidade em escalada em rocha e estava fissurado para “guiar” o lance.
Fixamos dois parafusos de gelo na rimalha além de um abalakov – costura com cordelete feita em dois furos no gelo – e abraçamos um pilar de gelo com fita. Reunimos estes quatro pontos de ancoragem que assim distribuíam a força do impacto de uma queda.
Arthur subiu na frente, instalou uma estaca de gelo onde passou a corda, costurou mais uma vez numa pedra envolvida por corda e cordelete e alcançou um trecho mais íngreme, mas com várias agarras e apoios para os pés. Numa fenda, entalou um cordelete com um nó para costurar novamente a corda, reduzindo sempre a altura da sua queda. E alcançou o topo. De lá, me auxiliou na subida recolhendo a corda. Preferi escalar de crampon, pois havia um trecho com gelo, uma rampa inclinada com terra e poeira, onde o crampon fixou bem também e na parte de agarras, ele não atrapalhou muito. Era preciso muito cuidado para escolher onde apoiar o pé ou segurar, pois os blocos de rocha se desencaixavam. A impressão era que se escalava uma pilha de enlatados no supermercado. Uma pedra rolou de cima e acertou bem no meio do meu capacete fazendo uma morsa.
Lá estávamos agora os dois lá no alto, bem na metade do dia!

 

No cume
No cume
Arthur no topo
Arthur no topo

Depois de várias fotos e uma escaladinha para alcançar a parte mais alta, verificamos que uma grande estaca de metal usada para rapelar estava soltinha pelo chão. O jeito foi desescalar este trecho.

Começamos a descida com a neve bem fofa. Em algumas gretas maiores eu fazia a segurança de Arthur, enrolando a corda no piolet e cravando-o na neve. Descíamos num ritmo bem rápido, por vezes nos afundando até quase os joelhos na neve fofa.
Num determinado momento, nos confundimos de crista e achamos que nos encontrávamos na última. Mesmo com rastros na neve seguindo pelo topo da crista, começamos a tomar a direita, descendo prematuramente a encosta, esperando ver o refúgio mais abaixo, querendo, desta forma, economizar tempo e cortar caminho. Mas começou a surgir uma infinidade de gretas fundas e largas que precisávamos saltar. A quantidade estava tamanha que por vários momentos, enquanto eu estava no ar saltando uma, Arthur saltava também uma outra mais atrás. Não demorou para avistarmos uma outra paisagem diferente lá em baixo. Ao invés do refúgio, um lago, alimentado pelas gigantescas cachoeiras que caíam dos vários glaciares suspensos no topo de paredões de rocha de centenas de metros do Tronador e que dão este nome a ele por causa do avanço e desmoronamento de seracs do tamanho de prédios que se transformavam numa nuvem branca lá embaixo. O lago era bem diferente do outro que avistamos na subida da trilha, pois continha vários grandes blocos de rocha espalhados por sua extensão. Tratamos de retomar nosso caminho no topo da crista e no final dela entendemos novamente o caminho.
Estávamos do outro lado do campo de gretas, onde brincamos no dia anterior. Eu me lembrava de um caminho que Nadir nos ensinou, cortando este campo e que economizaria muito tempo. À noite, sem visualizar o caminho, optamos por não utilizar este atalho, mas agora, podendo ver tudo lá de cima como uma miniatura, resolvemos encarar aquelas dezenas de gretas.
Traçamos uma linha, evitando as gretas maiores e continuamos em nossa caminhada-pula-racha.Descanso
Terminamos por volta de quatro da tarde no Otto Meilling, a tempo de fazer uma bela refeição no refúgio. Era dia 1º de janeiro de 2009 e tínhamos começado o ano com o pé direito. E com pé o esquerdo, e com o direito, e com o esquerdo…
Agradecemos pelas informações do pessoal de lá e partimos no dia seguinte.

Correria

O único ônibus saía as 17:00 hs de Pampa Linda rumo a Bariloche. E segundo os guias do refúgio, era possível fazer a descida em até duas horas. Aquilo me soava estranho, pois eu levei seis para subir. De qualquer maneira tentei estabelecer como horário limite 15:00 hs para iniciarmos nossa descida. Com o atraso certo, só fomos começar a andar as 15:30. Eu precisava estar no Rio sem falta apressei o passo. Logo abaixo do Otto Meilling não vi mais Adriana. Ela sabia que eu precisava tomar aquele ônibus e não ficaria aborrecida de ser deixada pra trás. Arthur que ia mais a frente, me acompanhava no meu ritmo. Depois de cravadas duas horas e meia onde eu precisei descer praticamente despencando por todos os atalhos e corta-caminhos da trilha e literalmente correr com o mochilão pesado todo o último trecho da estrada, chegávamos faltando 5 minutos para o ônibus sair. Deixei comida e fogareiro e me despedi de Arthur. Este ficou para esperar  Adriana, que chegou meia hora depois.
Naquele mesmo dia, os dois conseguiram uma carona para Bariloche, mas não nos encontramos mais na cidade. Eu embarquei no dia seguinte para Buenos Aires.
Arthur ainda ficou três meses por lá escalando em rocha no Frey e só retornou depois do carnaval!
A escalada em si não me pareceu muito difícil, técnica ou fisicamente (para uma alta montanha) mas precisou de pitadas de persistência, paciência, sorte, ousadia e entrosamento para resultar em sucesso! O que era pra ser quase um bate e volta solitário se transformou numa grande viagem, nova amizade e ótima aventura nas encostas do Tronador!

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