Aconcagua Sin Mulas

Frustração

Fiz minha refeição habitual, a sopa de polenta com macarrão e algum tempero japonês com gergelim.ComidaProcurei beber o máximo que pude, derretendo alguma neve, coloquei meu celular para despertar às três horas da manhã e pensei em tomar um “banho”. Depois de alguns dias sem água no corpo, planejava usar meu desodorante aerosol para disfarçar meus odores. Além do mais, na embalagem estava escrito “Antiperspirante”. Talvez se eu pudesse passar o desodorante por todo o meu corpo, diminuísse minha transpiração. Isso seria bom, já que me manteria mais seco e mais aquecido. Bom, pra isso eu precisaria tirar minha roupa. Pensei em deixar meu fogareiro ligado bem baixinho para manter a barraca numa temperatura agradável e tirei toda a minha roupa. Comecei a disparar o desodorante em todas as partes de meu corpo, principalmente nos pés. Já estava há alguns minutos fazendo isso, quando percebi que o ar estava ficando saturado do produto. Mas não deu nem tempo de pensar em abrir o zíper da barraca. Numa fração de segundo, uma explosão de chamas tomou conta do interior da barraca e soltei um berro quando vi aterrorizado que eu me via num mar de chamas. Deu tempo de eu me preocupar que o equipamento era alugado! Da mesma forma, que apareceram, as labaredas sumiram.
Procurei por danos, furos, roupas, algo que tivesse sido queimado, mas nada, além dos meus pelos, estava chamuscado. Era inacreditável que tamanha quantidade de chamas não tivesse deixado nenhum estrago. Fiquei alguns instantes avaliando minha perna pelada, sentindo aquele cheiro de cabelo queimado, quando numa inspiração, não consegui mais respirar. Dei um salto e abri o zíper da porta, metendo a cabeça pra fora e puxando um bocado de ar pra dentro. O fogo consumira o oxigênio da barraca.
Passado o susto, me aprontei, arrumei minha mochila e fui dormir. Pareceu que fechei o olho e abri novamente com o celular despertando. Comecei a chamar a galera das barracas em volta:
– Vai partir o bonde para o cume!
CrepusculoChamei mais algumas vezes até me dar conta de minha mancada. Meu celular ainda estava no horário do Brasil, uma hora adiantado! Me desculpei com o pessoal, mas acho que ninguém conseguiu dormir mais até as três. E às três horas da manhã, me levantei para preparar algo para comer e principalmente beber. Começava o trabalho de derreter gelo. Às quatro horas, as coreanas bateram em minha barraca e avisei que elas podiam ir, pois íamos nos atrasar. Só fomos começar a andar às cinco e meia da manhã.
Eu vestia uma balaclava, gorro, segunda pele, casaco de fleece, anorak e um grosso e pesado casaco por cima de tudo. Usava três camadas de calças: segunda pele, polartec, lã e a calça impermeável. Não senti problemas com o frio, exceto nos pés. Vestia uma meia fina, uma grossa sintética e uma grossa de lã, mais as botas duplas, mas mesmo assim sentia os dedos do pé congelando. Mas não era só eu. Wally recomendava-nos que movimentássemos os dedos para não congelar. Wally, por sinal, nos ajudou muito, reconhecendo ali na escuridão, o caminho que subia para Berlim.

À medida que íamos subindo, também ia clareando. Mas uma coisa agora me incomodava. Por causa do pesado casaco que eu usava por cima do anorak, eu transpirava muito. Preocupado em não ficar encharcado, achei melhor parar para guardar o casaco na mochila. Enquanto Cláudio e Wally tomavam distância, sentei numa pedra, na estreita trilha e tratei de enrolar da melhor maneira que pude o volumoso casaco. Também queria tirar foto da maravilhosa cena da gigantesca sombra que a montanha fazia por sobre a cordilheira, até o horizonte, com o sol nascendo por trás dela.

Sombra
Sombra

Na altura que eu me encontrava, contemplava todas as outras montanhas de cima. Senti minhas luvas encharcadas novamente, e o ventinho daquelas primeiras horas do dia começava a gelar meus dedos. Tirei então aquelas luvas que me deixavam os dedos gelados. Para perceber que sem elas eles ficavam mais gelados ainda! Eu já tinha visto aquela cena antes! Meus dedos estavam duros e dormentes outra vez e senti medo de congelar minhas mãos! Enfiei-as dentro das calças, para tentar aquecê-las. Não era possível, nem bem havia começado a subir! Se lá embaixo estava assim, comecei a me preocupar com o que enfrentaria mais pra cima… Alguns minutos depois, tirei as mãos de dentro das calças e procurei rapidamente as mitenes dentro da mochila. Foi um alívio enfiar as mãos naquelas luvas sequinhas. Prometi a mim mesmo que não tiraria minhas mãos de dentro das luvas nem que elas estivessem imersas em suor até voltar pro meu acampamento. O casaco na mochila pareceu pesar significativamente quando voltei a andar. Aos poucos fui diminuindo a distância entre mim e meus colegas até que alcancei Wally quando chegávamos a Berlim. Minhas mãos e pés doíam de frio e eu só pensava em subir para encontrar um lugar onde o sol pudesse bater. Passei por Wally, que andava um pouco mais devagar, e depois dos pequenos abrigos de madeira, aproximando de Cláudio ouvi-o dizer apontando para cima.

– Junior, segundo Wally, a Canaleta fica ali, estamos perto!
Ouvindo aquilo, senti um arrepio e me emocionei. Meu tão desejado objetivo estava próximo. Seria verdade que eu estaria lá no topo ainda naquele dia? Procurava me concentrar no que fazia, mas esses pensamentos eram inevitáveis. Eu já vibrava, comemorava e me emocionava somente sentindo o fim tão próximo. E assim continuava, até que Wally me gritou dizendo que não ia aguentar mais, atacar o cume de Nido, pra ele, estava exigindo muito. Aquilo me surpreendeu de certa forma, pois ele não parecia muito mal até então. Fiquei triste e, acreditando que estávamos perto, tentei animá-lo.
– Wally, suba mais um pouco, pois aqui, onde estou, já está batendo o sol.
Eu chegara num local onde os primeiros raios de sol batiam em cheio numa grande pedra e pareciam esquentar como um braseiro. Era um ótimo lugar para lagartear e fiquei encostado na pedra como um calango. Tirei as luvas e as estendi, desta vez com bastante cautela para saber se minhas mãos aguentariam o frio e aguentaram. O lugar não ventava e aquele calor era uma benção. Alguns minutos depois Wally chegava.
Depois de conversarmos, ele decidiu continuar mais um pouco e foi na frente. Cláudio, animado, disparou e somente voltei a encontrá-lo na Canaleta. Tínhamos agora uma grande rampa, que precisávamos vencer ziguezagueando lentamente. Por várias vezes eu senti uma vontade instantânea e incontrolável de urinar por causa da grande quantidade de líquidos ingeridos ao longo do dia. Quase não dava tempo de desabotoar as calças e me desvencilhar das outras três que estavam por baixo. Aquilo era muito chato!
Pé depois de pé, via meus colegas e outros grupos, quase no topo deste pedaço e pareciam muito próximos, mas eu sabia que estavam distantes uma hora ou mais de mim. Imaginei que a Canaleta ficava no final deste trecho, a rocha que Cláudio apontara. Mas minha água acabava neste ponto. Fiquei preocupado, aquilo era grave. Tomei uma aspirina, para evitar os sintomas de mal da montanha, já que começava a sentir a sensação de peso que antecedia as dores de cabeça. Filmei um depoimento onde cometo vários erros em poucas frases, mas só percebo depois, assistindo a fita.
Quase que instantaneamente com o final de minha água, veio uma fadiga incontrolável. Eu que tinha o caminhar constante, num ritmo bom, agora era obrigado a parar várias vezes para estabilizar a respiração e os batimentos cardíacos.
Chegando ao refúgio Independência, que eu chamo de Antártida na filmagem, parei pra descansar um pouco enquanto observava o pequeno chalé destruído, sem teto. Uma menina loira sozinha se aproximou vindo do lado do Glaciar dos Polacos e tentou alguma conversa em inglês. Quase pedi um gole de sua água, quando ela puxou uma garrafa para beber. Ela continuou a andar montanha acima e eu a segui alguns minutos depois. No topo da rampa, pude ver um longo caminho plano, acompanhando a lateral da montanha. Lá em baixo, eu podia ver o acampamento Nido de Condores e o acampamento base! O caminho acumulava uma fileira de gelo, parecia de propósito que justo naquela estreita trilha, com um barranco de 2000 m de extensão à direita, houvesse gelo ou neve para complicar. Depois de descansar, abrigado do vento, ao lado de uma rocha, continuei a caminhar, buscando alcançar meus colegas que eu quase não enxergava mais. Em alguns pontos fiquei na dúvida quanto a usar os crampons, pois o gelo parecia traiçoeiro e o barranco às vezes era mais abrupto. Num determinado momento, tomei um susto, vendo uma coisa que não conseguia distinguir. Depois entendi que era a uma bunda branca apontada pra cima. Parece que a menina que ia à frente já não se incomodava mais com protocolos na hora de urinar.
Essa menina, depois de conversar com um cara que vinha voltado, retornou e abandonou a idéia de tentar o cume naquele dia, provavelmente por causa do horário. Eu chegava ao fim do trecho plano, chamado Travessia e começava a subir. Acima de mim, o caminho seguia reto pra cima, com um forte aclive e eu tive a primeira visão da canaleta. Já sabia por relatos que era uma rampa de pedra, diferente da ideia que temos de uma canaleta estreita, esta canaleta acompanha as proporções do gigante Aconcágua, parecendo ao longe uma auto estrada rumo ao topo. A base dela mesmo, onde ela fica mais íngreme é onde o espigão menor da direita deita sua sombra. Vários grupos estavam a minha frente e eu procurava distinguir Wally e Cláudio.
Canaleta
Canaleta

À medida que se aproxima da canaleta, o caminho fica mais íngreme. E comecei a realmente sentir que havia algo errado comigo. Eu não conseguia mais caminhar continuamente, nem mesmo em um ritmo extremamente lento, tal qual um bicho preguiça. Comecei a sentir o coração batendo cada vez mais forte e os tempos para parada e descanso se tornavam cada vez maiores. A falta do precioso líquido no meu organismo começava a fazer seus efeitos.

Muitos podem ser os fatores que me levaram a me sentir mal. O fato de tentar atacar do acampamento 2 sem ao menos permanecer uma noite lá. Pouca água ingerida nesse dia – 3 ou 4 litros -, o peso na mochila – duas câmeras fotográficas pesadas, uma filmadora, crampons, piolet, o casaco de pluma que eu tirara do corpo por sentir muito calor. Minha mochila devia pesar uns dez quilos.

Agora meu coração disparava como se fosse uma metralhadora, batendo tão forte que doía na garganta. Para normalizar meu corpo eu me deitava e adormecia, cochilava mesmo por alguns minutos e quando acordava, o coração parecia normal. Mas era só dar alguns passos novamente que o bicho parecia que ia explodir de novo. Com muito custo, cheguei à base da canaleta, assustado com meu estado, encontrei Cláudio e Wally lá. Não lembro de ter visto Lucas, mas segundo eles, Lucas, que descera do cume, avisara que ainda teríamos 4 horas de canaleta até o topo, o que tornava quase inviável prosseguir. Eram 15:00 hs. Não só pelo horário, já que escurece por volta de 21:00, mas se eu já estava assim ali, imagina depois de 4 horas de mais esforço pesado. Sem contar que eu deveria levar mais do que as quatro horas naquelas condições.

Wally e Cláudio já tinham decidido retornar também quando afirmei que não tinha mais condições de continuar.

Minhas lembranças desses momentos em que estava mal são meio estranhas, como se fosse um sonho, ou como se eu estivesse realmente embriagado.
Decidir voltar não foi difícil, em algumas outras situações já experimentara a experiência de ter que abortar os planos. Mas fazia parte destes planos, fazer o que fosse preciso pra conseguir chegar. Inclusive voltar. Encarei essa tentativa como uma ascensão de aclimatação.
Gran Acarreo
Gran Acarreo

Tínhamos que descer ao acampamento dois, Nido de Condores e logo abaixo da Canaleta, no meio do trecho chamado Travessia, existe um super atalho-corta-caminho chamado Gran Acarrero, que leva direto a Nido, sem passar pelos refúgios e acampamentos mais altos. O Gran Acarrero é uma rampa de 45 graus de inclinação que deve ter uns 2000 m de desnível. Da mesma forma que de Nido de Condores, consegue-se avistar a canaleta e o cume, com a falsa impressão de proximidade, de cima, a sensação que se tem é de que em uma hora no máximo estaremos lá embaixo. Mas é como se estivéssemos no topo da Pedra do Sino em Teresópolis com seus 2.263 m e descêssemos por uma rampa íngreme até quase o nível do mar.

Era essa a oportunidade de entrar em mais uma roubada.
Putcha, que descida mais fila da mãe! Era o dobro do Frade de Angra descendo rumo ao Hotel, a descida íngreme mais longa que eu até então tinha feito. Eu ainda descia um pouco mais rápido que Cláudio e Wally, pois vinha esquiando, escorregando e caindo pelo caminho, mas eles me alcançavam quando eu parava para dormir. Por mim, passaram as coreanas voltando do cume, e sumiram na distância. Devemos ter levado umas cinco horas para descer tudo e o gaúcho Lucas que desceu pelo outro lado, passou pelo Acampamento 3 Berlim, desmontou barraca, arrumou mochila, chegou primeiro que a gente e já derretia neve.

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