Caminhada Guarapari/Vitória

Haveria sempre um jeito de se caminhar ou eu me depararia com encostas rochosas ou qualquer outro obstáculo natural? Continuei andando e foi escurecendo. Ainda lembro nitidamente a lâmpada daquela casa, que seria a última que eu veria em muito tempo de um horizonte escuro e deserto de areia e mar.

       Essa foi uma das experiências mais marcantes da minha vida e acho engraçado lembrar de como resolvi fazer esta caminhada sem nada ter sido planejado e sem nunca ter ouvido falar de pessoas que já haviam feito este trajeto.

       Eu e Ulisses queríamos viajar na semana santa de 1997 ou de 1998, não me lembro bem. Nós queríamos ir para Guarapari – ES, mas estávamos com pouco dinheiro. Por sorte, Ulisses encontrou na semana anterior uma conhecida que trabalhava no nos Correios do Rio (prédio central ao lado da minha casa, na Cidade Nova) e pedimos para ela nos arrumar uma carona. Conhecemos o caminhoneiro Gilvan que estava indo para Vitória e nos levaria. Combinamos o horário e, mais tarde, esperamos na esquina do prédio e embarcamos em um caminhão, que era muito grande, mas a cabine deveras apertada.

       Foi uma viagem sofrida. Ulisses ia na janela, com uma bolsa entre as pernas – nossas bagagens tinham que ir na cabine, pois a caçamba viajava lacrada – e eu ia no meio abraçado com minha primeira mochila de setenta e tantos litros. Ela não estava comprida o bastante para que eu pudesse encostar a cabeça nela para dormir, assim, fui batendo cabeça de sono durante pelo menos umas seis horas de viagem, imprensado contra o câmbio da marcha.

        Gilvan nos deixou na entrada para Guarapari e pegamos um ônibus até a cidade. Achamos a cidade muito interessante. O centro fica à margem de um canal que lembrava Cabo Frio, no Rio de Janeiro. Pegamos outro ônibus e nos dirigimos à Setiba a uns 15 km do centro, onde meu colega André e seu irmão Márcio passavam o verão com a família acampados, todo ano.

        Passamos o feriadão mergulhando de dia nas praias cristalinas de Setiba e à noite íamos passear no centro. Uma recomendação para quem for fazer algo parecido: procurem se informar do horário do ônibus, pois na primeira noite voltávamos às duas ou três da manhã e descobrimos que não havia mais ônibus nenhum para nenhum lugar próximo do nosso camping em Setiba. Isto depois de mofar umas duas horas no ponto, com frio, com fome e com sono. A opção era dormir no banco ou andar os 15 km. Preferimos andar e conseguimos uma carona até a metade do caminho, o resto, nós fomos correndo.

         Chegou o dia de partir, mas para mim a aventura estava apenas começando. Ulisses tinha que voltar para o quartel, mas eu não estava trabalhando e achei uma pena ter que voltar logo. Apesar de só ter CINQÜENTA CENTAVOS, resolvi ficar. Ulisses me perguntou como eu faria para voltar e foi então que tive a ideia de procurar o caminhoneiro que havia nos trazido. Para isso eu teria que ir até Vitória, distante 60 km de Guarapari.

          Neste dia, achamos um coco na beira do mar – coisa que mais tarde eu vi freqüentemente. Para quebrar o coco, resolvi dar um golpe com o calcanhar nele contra o chão. O coco se partiu mas o meu pé entrou no buraco que se abriu e uma ponta afiada da casca talhou o meu pé.

        Ulisses partiu e depois fui saber que ele também precisou ir para Vitória, pois não achou passagem para o Rio em Guarapari.

         O Início

        Almocei um espaguete que eu mesmo fiz e, depois de imaginar por alguns instantes o que eu viria pela frente, comecei a andar. Era umas cinco da tarde e eu não sabia exatamente qual o melhor caminho a tomar. Após meia hora, o peso da mochila dava a impressão de que eu não aguentaria nem por mais dois quilômetros, quanto mais por sessenta. Não sabia se eu teria que acompanhar a estrada, o que tornaria a viagem não muito agradável, ou se eu conseguiria achar um caminho beirando o litoral. Haveria sempre um jeito de se caminhar ou eu me depararia com encostas rochosas ou qualquer outro obstáculo natural? Continuei andando e foi escurecendo. Ainda lembro nitidamente a lâmpada daquela casa, que seria a última que eu veria em muito tempo de um horizonte escuro e deserto de areia e mar .

         Eu não tinha relógio e estava sempre tentando calcular quanto tempo havia se passado ou quanto eu já poderia ter andado. Também tinha que ter sempre a preocupação de entender como era o litoral por onde eu caminhava, já que eu não havia visto nenhum mapa da região. Uma das minhas muitas preocupações era de que eu pudesse estar andando em direção a uma restinga e que pudesse perder muito tempo andando à toa para depois ter que voltar.

       Eu caminhava pela areia, o que no início foi um pouco difícil, visto o peso que se encontrava a minha mochila. Nela havia, a barraca de 4 lugares iglu, que pesa mais ou menos 4 kg, o saco de dormir, pés de pato, arpão, máscara, uma roupa de neoprene úmida, e entre outras coisas mais, um cinto de lastro com placas de chumbo com uns oito quilos! De comida, eu tinha umas 300 g de fubá, 500 gr de açúcar, 200 g de leite em pó, 300 g de macarrão spaghetti, um saquinho de arroz pré-cozido e um pedaço de bacalhau salgado – era domingo de Páscoa! Além disso, como eu não sabia se eu iria encontrar água no caminho, eu levava uma garrafa plástica de refrigerante dois litros que eu havia achado. Ela ficava amarrada na mochila pelo lado de fora, no centro. Nas tiras da esquerda, pendurei uma panela e uma frigideira, e nas tiras da direita o arpão estava preso ao longo da mochila com o tênis e o chinelo pendurado mais abaixo. Só lembro de ter carregado minha mochila tão pesada na primeira vez que acampei em Teresópolis.

       A essa altura não havia mais sinal de civilização nenhuma, não havia nenhuma luz elétrica em qualquer direção que eu olhasse, só as estrelas e uma lua cheia gigantesca e alaranjada sobre o mar à minha direita que iluminava tudo como um sol . Incrivelmente, eu cheguei a confundi-la e achei que ainda era o sol se pondo. Aquilo me dava uma sensação que eu nunca havia experimentado. Na floresta, você geralmente anda por trilhas, que não deixam de ser um sinal de que alguém esteve ali, aquele é o caminho por onde você tem que seguir, ali não, minha sobrevivência e minha rota nos próximos dias dependeria unicamente de mim, é óbvio que eu seguia o contorno do litoral, senão seria quase impossível sem um mapa – a bússola eu tinha no cabo da faca.

       À minha esquerda havia uma vegetação rasteira que acompanhava toda a praia e freqüentemente ouvia ruídos de animais rastejando ou de corujas que levantavam voo gritando de repente e me davam um baita susto. Achei mais prudente caminhar pela areia fofa. O mar neste local era muito violento, quebrando ondas enormes direto na areia e se eu andasse na areia compacta da beira d’água, iria me molhar todo. Imaginava que já seria tarde e não tinha a mínima ideia de quanto tinha andado, eu só esperava encontrar um lugar para dormir.

       Encontrei esse lugar quando parei frente a um morro baixo que avançava até o mar, cruzando a praia e onde a faixa de areia terminava. Ao lado desse morro existia uma lagoa de água marrom. Cheirei muito a água e provei, havia uns peixinhos nela e achei que podia usa-la para fazer comida e beber. Montei a barraca e saí para explorar um pouco o lugar. Ao subir a pedra que cruzava meu caminho, uma surpresa: Ela estava toda coberta de siris! Voltei imediatamente com a lanterna, um saco plástico, e o bicheiro. A estratégia era apontar a lanterna para o siri, deixando-o cego, meter o bicheiro nele e botar no saco. Catei os maiores e taquei na panela para cozinhar. Neste dia comi muito siri e estava delicioso. Só dei mole na hora de fazer o arroz, porque resolvi botar um pouco de água do mar para temperar e ficou intragável. Não sei a hora que eu fui dormir, mas imagino pela posição da lua que deveriam ser umas onze horas.

       Segundo Dia

      Acordei com vozes e olhei para fora da barraca e vi dois caras iguais – deveriam ser irmãos gêmeos – sentados sobre a pedra, tentei entender o que conversavam, mas não consegui e eles pareciam me ignorar. Estavam vestidos com uma roupa parecida, os dois com camisa de listras horizontais brancas e azuis e pareciam ter em média uns cinquenta anos, com cabelos grisalhos, os dois usavam barba e achei estranho como eles vieram parar ali. Entrei na barraca para arrumar as coisas e começar a andar, quando saí os dois já não estavam mais lá. Na hora não liguei, mas agora escrevendo sobre o assunto me arrepiei quatro vezes.

      Arrumei as coisas e me despedi daquele lugar onde havia uma placa escrito: “Lagoa Caraís, Parque Estadual de Setiba”. Comecei a andar por volta de dez ou onze horas de acordo com a posição do sol. Atravessei a pedra e recomecei a caminhar pela areia do outro lado. O segundo dia foi o mais desgastante, andei o dia inteiro com um sol forte, vestia só sunga e andava descalço. No machucado do pé, a areia já havia tapado a ferida. Começava a sentir os efeitos do peso da mochila: as alças pareciam que iam entrar na carne e os ombros começavam a doer, comecei a parar para aliviar o peso com um intervalo cada vez menor. De tempos em tempos, eu via umas estruturas construídas com bambu ou troncos e um telhado de palha, localizadas onde a areia encontrava a vegetação. Lembrava um ponto de ônibus de frente para o mar. Encontrei uns cinco desses durante o segundo dia e fiquei pensando qual seria a finalidade daquilo. Num deles deitei e descansei. Durante o dia inteiro andei por praias desertas e sem nenhum sinal de vida humana, aquilo era surreal. Em certo momento, parei para aliviar o peso e entrei no mar, que me convidava com águas cristalinas e verdes, com ondas de um metro. Peguei uns jacarés e comi um coco que o mar trouxe, encontrei muitos, mas só dois não estavam podres. Mastiguei o esparguete cru também e esta foi a refeição do dia. Voltei a andar e ao todo eu caminhei por umas três praias com extensão mais ou menos igual a da Barra da Tijuca. Sempre ficava a expectativa do que viria depois de cada uma.

        Os Cães

        Por volta de três e meia da tarde eu comecei a ver umas dunas bastante altas e não resisti a subir, elas formavam um conjunto que lembravam castelos ou os cenários de mundos de Guerra nas Estrelas. De lá de cima avistei uns cinco cães correndo pela areia em sentido contrário ao que eu vinha quando caminhava acompanhando a praia. Tive medo por imaginar o que eles estariam fazendo ali ou que tipo de cães eram. Me mantive em silêncio, mas me avistaram e começaram a latir lá de baixo. Procurei então algum tipo de pau, pois minha faca estava dentro da mochila e não daria tempo de tirá-la. Mesmo assim eles  começaram a vir em minha direção. Então eu parti correndo para cima deles e eles voltaram a seguir seu caminho, intimidados. Esta técnica usei recentemente ao descer da Pedra da Gávea à noite e encontrar três cães que partiram em minha direção correndo. Também funcionou. Desta vez eu puxei também a minha faca. Por estas e outras aconselho sempre a trazer uma ao alcance da mão.

         A Tempestade

         Algum tempo depois, comecei a ver as primeiras pessoas e quiosques e achei outro coco. Cheguei em um vilarejo, o mar era bem calmo e parecia ser bom para mergulhar. Pedi para deixar a mochila em uma casa e entrei na água perto de um pontal. Saí logo em seguida porque o mar estava repleto de algas, tornando a visibilidade de menos de um metro. Na areia, montanhas de algas acumulavam deixando um cheiro ruim no ar. Começou a escurecer e eu atravessei por dentro do lugarejo, sempre procurando manter a direita para não me afastar do mar. Pedi para encher meu cantil e a garrafa de água em um bar e continuei andando pela areia, agora podia ver umas luzes à esquerda e alguns quiosques de madeira na areia. À minha frente já dava para ver, iluminando o céu, um clarão de luzes muito distantes de uma cidade que eu supunha ser Vitória ou Vila Velha. Andar a noite poupava do castigo do sol e o quanto eu aguentasse, ainda continuaria naquele dia. Depois de algumas horas, com uma lua linda à minha direita, olhei para o céu acima do mar e achei algo estranho. A lua havia sumido e o céu, que antes era azul turquesa, mas agora parecia preto. Um ventinho soprava levemente e de estalo entendi o que acontecia. Um tempestade se aproximava e parecia violenta. Tive sorte em perceber logo, porque trinta segundos depois já ventava forte, mais um minuto e já comecei a ver raios e com uns dois minutos começava a pingar. Durante este tempo armei a barraca mais rápido que um foguete e tentei recolher alguma lenha para fazer fogo para o dia seguinte ou caso a chuva passasse. Escondi a lenha embaixo da barraca e entrei. Logo em seguida, a tempestade caiu com violência. Eu nunca tinha pego chuva e ventos tão forte na minha iglu e ela resistiu. Lá dentro eu era amassado contra o chão pelas paredes da barraca, por causa do vento. Logo formou uma poça d’água no interior, por causa da condensação. Mas deu para comer o esparguete cru e dormir. No dia seguinte, o céu estava nublado e vi uns surfistas pegando onda. Sempre que eu achava alguém, procurava me informar do lugar. Quis fazer uma fogueira, mas a lenha estava encharcada, então recomecei a andar e agora sentia um pouco de fome.

         Agora eu andava sobre uma praia que, em vez de areia, tinha umas formações rochosas muito peculiares e à esquerda, pinheiros. No fim da praia havia um morro alto e eu não sabia se existiria algum caminho. Por sorte vi uma trilhazinha  por onde algumas pessoas subiam para talvez apreciar a vista. Abaixo, no mar, haviam surfistas. Ao chegar no alto do morro pude ver o caminho por onde vim e compreendi o quanto andei, pois não conseguia ver o fim das praias do parque. Comecei a descer do outro lado e passei por uma casa com umas pessoas que moravam ali. Mais uma coisa me preocupava, a trilha ia sumindo no mato e do outro lado havia um rio com uns 15 metros de largura. Desci pela encosta do morro e parei em uma pedra que terminava no rio. vi uns pescadores na margem do rio jogando tarrafa com água na cintura e imaginei que não conseguiria passar com minha mochila pesada, já que no meio havia uma correnteza. À esquerda eu via uma ponte muito longe que para mim usar teria que voltar e contornar o morro. Minha sorte foi passar uma canoa com um pescador que me deu uma carona.

         Eu já estava cansado de caminhar pela praia e agora seguia por uma estrada de terra (ou melhor, de poeira) ladeada de uma vegetação alta e densa. Quando vi uma passagem a esquerda, entrei para tomar um banho no rio que eu tinha atravessado e que agora eu acompanhava na estrada paralela à praia. Pendurei a pochete que eu carregava na cintura em uma árvore, descansei e bebi água. Recomecei a andar, depois de uns quinze ou vinte minutos andando dei falta da pochete! Escondi o mochilão no meio da vegetação e marquei bem o lugar. Voltei correndo por quase dois kilômetros, com medo de alguém passar pelo local que eu deixei a pochete com minha carteira, que apesar de não ter dinheiro, tinha meus documentos. Cheguei no local e achei tudo como eu tinha deixado, peguei a pochete e voltei andando. Mais a frente voltei a parar para fazer comida, na margem daquele rio.

          Após cada parada, a decisão de recomeçar a andar começava a ficar mais difícil, devido ao cansaço. Agora eu estava andando numa praia cada vez mais urbanizada e via muitas obras de torres residenciais parecidas com as da Barra da Tijuca. Na direção do mar, eu via uma ilhazinha que não parecia ser muito distante. Continuei enquanto escurecia e o lugar me lembrou as praias do Rio de Janeiro, com iluminação, gente fazendo cooper, coqueiros na areia e pessoas pescando na beira do mar. Resolvi passar a noite ali. Aquela era a Praia de Itapoã em Vila Velha. Minha intenção era acordar bem cedo no dia seguinte para ir até às ilhas vizinhas mergulhar.

        O Biólogo da Ilha

        No dia seguinte acordei às cinco da manhã e deixei minhas coisas em um bar em frente, nadei até as proximidades das ilhas e vi que havia uma cabana feita de madeira na maior ilha, que mesmo assim ainda era muito pequena, talvez com uns cinquenta metros quadrados. Mergulhei até uma hora da tarde e peguei um bugião de um quilo ou mais, entre outros peixes, também dei de cara com uma moreia gigantesca com a boca escancarada para mim, quando eu enfiava a cabeça em uma toca. Vi que, na ilha, uma pessoa andava por ali e resolvi parar e descansar nas pedras. Conversando com o cara que ali estava, fiquei sabendo que ele era biólogo e estudava aves que se reproduziam naquele local. Ele também me ofereceu café e falou sobre os empreendimentos imobiliários que avançavam ilegalmente sobre o Parque de Setiba e de roubo de areia nas praias do parque para as construções.

         Quando voltei, o pessoal do bar e os pescadores da colônia ficaram intrigados com minha estória e com minha praticidade – fiz uma fogueira na areia, junto a calçada, pedi óleo e sal e fritei os peixes que já estavam limpos. Alguns chamavam os outros que passavam para me mostrar, dizendo de onde eu vinha. Alguém comentou que já tinha visto passar por ali gente de moto e bicicleta indo até para Bahia, mas a pé nunca. Naquele dia, comi peixe até explodir. Quando começou a escurecer, eu já tinha feito um bocado de amizade e o pessoal insistia para que eu ficasse mais tempo ali, que me ajudariam, eu poderia pescar e vender peixe, etc. Mas decidi continuar com os planos iniciais, e parti. Me aconselharam a fazer o último trajeto de ônibus porque era preciso atravessar uma ponte enorme, parecida com a Ponte Rio-Niterói, pois Vitória é uma ilha. Até me emprestaram um real para a passagem. Segui o conselho e cheguei finalmente a Vitória.

         Vitória

          Eu tinha um cartão e liguei para o serviço de telefonista para procurar a sede principal dos Correios, após conseguir o endereço fui para lá e me dirigi ao vigia. Ele me informou que os caminhões que iam para o Rio saíam de tarde e era para eu voltar no dia seguinte. Saí então para procurar um lugar para montar acampamento, uma tarefa difícil, pois eu estava numa capital. Os correios ficavam num bairro chamado Maruípe e saí perguntando onde teria uma praia mais próxima. Me informaram e eu andei pra caramba até uma praia que lembrava a de Botafogo, no Rio. Montei acampamento, comi o bacalhau cru e fiz uma mistura com o fubá, o açúcar, o leite em pó e água. Esquentei no fogareiro e ficou um doce bom pra caramba.

           No dia seguinte, fechei a barraca e sai para conhecer o lugar. A praia estava vazia, talvez por ser dia de semana, havia vários quiosques vendendo coco, etc. Andei até um hiper mercado pensando em comprar um pão. Com os cinquenta centavos deu pra comprar uns três ou quatro pães e passando pela seção de chocolate, tive que dar um tapa em uma barra. Meu almoço foi pão com io-io cream (chocolate derretido no pão).

          A Volta

          Arrumei minhas coisas e voltei para a sede dos Correios em Maruípe, mas no caminho, eu estava preocupado, tentando lembrar o nome do motorista que me trouxe, para, mesmo que ele não estivesse lá, mostrar que eu o conhecia e assim ter mais chance de pegar uma carona de volta com algum outro motorista mesmo.

           Quando eu falava com o vigia do correio, consegui me lembrar do nome do caminhoneiro: era Gilvan. Então, para minha alegria, fiquei sabendo que ele estaria lá ainda hoje e comecei a esperar. Quando o encontrei, Gilvan ficou surpreso em me ver lá e, mais ainda, por saber que vim a pé. Comentou que, quando mais jovem, era hippie e caminhou sem destino de São Paulo ao Rio. Durante a volta, procurei ficar o máximo possível acordado para fazer companhia a ele, mas não deu. Voltei do jeito que fui: batendo a cabeça.

           Desta aventura só me arrependo amargamente de não ter levado máquina fotográfica.



Bicheiro:Espécie de anzol grande preso na ponta de um cabo, usado também para pegar polvo.
Jacaré: Descida pela onda como surf, usando só o corpo como prancha.
Bugião: Peixe escorregadio com a carne mole e escamas grandes, também conhecido como Batata ou Sabonete.
Moréia: Enguia muito agressiva de dentes muito finos, parecendo agulhas

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