Cerro Solo

El Chaltén 

Até bem pouco tempo a região de El Chaltén era um local extremamente remoto e de difícil acesso. A partir de meados dos anos 80 foi criado o município e as coisas vem mudando por lá com a chegada de infraestrutura. Hoje El Chaltén (ou apenas Chaltén, como costumamos chamar) é considerada a capital nacional do trekking na Argentina. É também uma das principais entradas do Parque Nacional Los Glaciares e um dos principais destinos dos montanhistas na Patagônia.

O maciço de El Chaltén, onde estão o Cerro Chaltén (Fitz Roy) e o Cerro Torre, é formado por inúmeras agulhas que proporcionam caminhadas e escaladas de altíssimo nível e para todos os gostos, além de abrigar o Campo de Gelo Sul, a terceira maior massa de gelo continental do planeta, atrás apenas da Antártida e Groenlândia.

O clima da patagônia é conhecido por sua instabilidade e seus ventos arrasadores. Para escalar as principais montanhas da região normalmente é preciso muita paciência para aguardar as tão esperadas ventanas (períodos de tempo bom).

El Chaltén
El Chaltén

Em março de 2014 fui para Chaltén com o Junior (Paulo Marim) e nosso principal objetivo era realizar a Travessia do Campo de Gelo Sul. Além disso, fazer as principais trilhas do Parque e, se possível, alguma escalada por lá.

No dia que chegamos havia a previsão de uma pequena ventana (janela de tempo bom) para dali a dois dias. Pensamos em aproveitá-la logo, pois os dias seguintes seriam de tempo ruim. Não era o ideal, mas em tese os dois dias que estaríamos mais vulneráveis no campo de gelo seriam os de tempo bom. Chegamos no albergue, arrumamos as mochilas e conseguimos transporte para nos levar até a entrada da trilha no dia seguinte pela manhã.

Iniciamos a caminhada com uma pequena garoa e partimos em direção ao Paso Marconi. Após passarmos do Refúgio Pedra del Fraile, não havia mais trilha definida e nem proteção de vegetação. O vento era contra e muito forte, o que dificultava a caminhada. Próximo ao Lago Eléctrico o vento levou a capa de chuva da mochila do Junior, que teve que largar a mochila e voltar correndo para conseguir pegar a capa de volta.

Perdemos muito tempo tentando atravessar o Rio Pollone. Junior perdeu algo mais também. Um dos seus bastões de caminhada escapuliu de sua mão num escorregão e foi levado pelo rio. Ele estava alto e haviam nos dito que era possível passar pelas pedras mais acima. Estávamos  procuramos alguma passagem pelas rochas molhadas e escorregadias, mas não teve jeito. Como estava ficando tarde, resolvemos acampar por ali mesmo e continuar no dia seguinte. Pela manhã, com a maior parte da água do rio congelada mais acima, foi bem mais fácil atravessar pulando de uma pedra para a outra mesmo mais abaixo. Depois de algumas horas chegamos no Glaciar Marconi.

Colocamos nossos crampons e continuamos. A passagem para o Passo Marconi estava bem complicada e o tempo não estava colaborando muito. Resolvemos dormir ali e analisar melhor no dia seguinte. Passamos a noite ao som das quedas dos enormes séracs. Acordamos e subimos sem peso para avaliar. Fomos até a base dos grandes seracs suspensos e prestes a desmoronar numa breve pausa no tempo ruim. 05-1 Glaciar MarconiA passagem nos pareceu mais difícil do que imaginávamos e com o retorno da neve caindo resolvemos então retornar para a cidade e fazer outras caminhadas. Talvez escalar o Cerro Solo… Estávamos sem raquetes de caminhada e sem trenós. Caso nos víssemos no meio da calota de gelo com muita neve estaríamos em apuros. Além disso a saída do gelo exigiria uma boa visibilidade para encontrar a passagem em meio a rochas alguns dias à frente.

Partimos direto até quase a entrada da trilha onde resolvemos dormir e esperar uma carona no dia seguinte.

Chegamos no albergue e descobrimos que dali a dois dias teríamos mais dois dias de ventana! 🙂 Era o que precisávamos para tentar o Cerro Solo! Partimos então para a trilha da Laguna Torre, onde se tem uma vista belíssima do Lago, do Glaciar e do Cerro Torre. Procuramos onde ficava a tirolesa para o caminho do Cerro Solo e fomos até o Mirador Maestri.

No dia seguinte fomos até o Centro de Visitante do Parque para pegar informações sobre a subida do Solo e preparamos as mochilas.

Cerro Solo e Maciço do Fitz Roy
Cerro Solo e Maciço do Fitz Roy

Saímos na manhã seguinte pela mesma trilha em direção à Tirolesa que atravessa o rio Fitz Roy ao lado da Laguna Torre.

Dali a trilha segue contornando a Laguna Torre até chegar a uma canaleta bem óbvia e começa a subir em direção ao glaciar do Solo. Chegamos lá em cima no final do dia e não encontramos a subida para o glaciar onde acamparíamos. Resolvemos fazer um bivaque num local mais abrigado e continuar no dia seguinte. Do nosso bivaque tínhamos uma vista incrível dos Maciços do Torre e do Fitz Roy e uma lua quase cheia! Preparamos nossa janta e deitamos. Acordamos por volta das 3:00h pois a ideia era aproveitar ao máximo a neve endurecida pelo frio da noite.

Fitz Roy

Demoramos um pouco para encontrar a subida para o glaciar em meio às pedras escorridas de uma moraina, mas achamos… 🙂

Começamos a escalada ainda no escuro. Junior foi guiando e eu ia seguindo o rastro deixado na neve. Foi uma subida tranquila, exceto por alguma parte com neve pelos joelhos devido às precipitações dos dias anteriores. As 9h estávamos no cume, a 2100m de altitude. E que visual lá de cima! É possível ver o maciço do Fitz, do Torre, parte do Gelo Continental, o lago Viedma, a cidade de Chaltén e muito mais.

Essa era minha segunda experiência em escalada em neve. Antes eu tinha feito apenas a Arête des Cosmiques, uma via mista de rocha e neve em Chamonix, na França. E para mim, a descida não foi tão tranquila. Subir no escuro foi bem mais fácil que descer passando ao lado das gretas, atravessar pontes de neve, etc. Mas o Junior tinha bastante experiência em neve já e foi me ajudando na desescalada. Chegamos de volta ao nosso platô do bivaque cansados e resolvemos dormir ali mais uma noite, já que a previsão dizia que a chuva e os ventos fortes só começariam no final do dia seguinte. Além disso, ensaiamos uma descida, mas perdemos algum tempo confusos entre um labirinto de grandes blocos de granito. Passamos uma noite a seco, sem nem um biscoitinho para comer e no dia seguinte o tempo piorou antes do esperado. Acordamos já com uns pingos de chuva. Tomamos um café bem rápido, arrumamos as mochilas e iniciamos a descida. Logo no início da descida os famosos ventos patagônicos começaram. A descida era toda por uma canaleta de pedras soltas. Tínhamos que ficar distantes um do outro para evitar que as pedras rolassem em cima de quem estava mais embaixo. O vento então canalizado era tão forte que ficávamos andando inclinados no sentido contrário ao vento para não sermos derrubados, mas quando vinha alguma rajada de outra direção, o que era bem comum, éramos arremessados ao chão na hora como bonecos. Não tinha muito o que fazer. Um dos meus bastões de caminhada chegou a empenar. Tínhamos que usar os goggles para proteger os olhos e o rosto da areia e dos pequenos cristais que o vento trazia e o barulho impedia que ouvíssemos um ao outro mesmo aos berros.

Quando saímos da canaleta e chegamos de volta a trilha, protegida pela vegetação, foi um alento! O clima calmo e quente não se parecia em nada com o que enfrentamos vários metros acima. Seguimos de volta ao albergue, tiramos um dia de descanso e depois fizemos as trilhas da Laguna Capri e Lago de Los Tres. O Junior voltou antes de mim e tive um dia a mais que aproveitei para fazer a trilha do Loma del Piegle Tumbado. Todas ótimas trilhas, bem sinalizadas e com muita gente fazendo.

Depois que acabou, ficou aquela vontade de voltar. Tem muita coisa para fazer por lá! Fiquei com muita vontade de escalar em rocha por lá. Tentar a Agulha Guillaumet, talvez. Mas escalar em Chaltén não é moleza… Preciso treinar!

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