Glaciar dos Polacos

Muita Neve

Nesta noite nevou pesado sem interrupção. Para sair da barraca primeiro tivemos que desobstruir a entrada. Acordamos com meio metro de neve cobrindo tudo de branco. Mais tarde partimos para o campo um. Arthur me contou que ouvira de alguém, que o ideal para sabermos se conseguiríamos fazer a Polacos era se conseguíssemos subir o trecho entre o acampamento base e o acampamento um em três horas e meia. Segundo informações na internet esse percurso era feito de 3 a 5 horas.

Ia ser a primeira vez que eu iria caminhar com aquelas minhas novas botas duplas. Novas porque eu estava estreando, mas eu as tinha comprado de segunda mão.  Foi meio em cima da hora e pela internet, pois as minhas antigas tinham começado a se esfarelar na última montanha que fiz no Peru. Não me preocupei muito com isto, pois elas eram do mesmo número da antiga e, apesar de serem de outra marca e modelo, já vinham amaciadas!

 

Bolhas nos calcanhares
Bolhas nos calcanhares

Mas não é que as coisinhas começaram a fazer um atrito miserável nos calcanhares? Eu não estava nem na metade, Arthur já tinha disparado na frente com os silver tapes enrolados nos bastões e agora eu ia pisando com cuidado e curtindo as dores das bolhas que começavam a se formar. Sempre costumo dizer que bolha se resolve no início. E a melhor solução pra mim é cobrir o local com silver tape antes de formar a bolha e não vi opção. Nem lembro da última vez que tive bolhas nos pés e agora eu tinha mais uma coisa pra me preocupar. Se andar algumas horas estava me torturando, no dia do cume, com 10 horas de escalada e o pé já detonado há dias ia ser uma delícia, além de ficar mais suscetível a congelamentos nas áreas machucadas.

Durante a subida, novamente ultrapassei uma turma que havia começado antes de nós e entre eles, os indonésios do grupo “Seven Summits”. Notei que um deles caminhava muito devagar com uma cara nada boa, acompanhado de perto por um guia. A dupla estava bem distante do resto do grupo e parava com frequencia para que o cliente se recobrasse. Acho que esse indonésio infelizmente retornou antes do campo 1.

Vento braco no cume à esquerda

Consegui chegar no campo 1 com as 3:30h mesmo parando algumas vezes e não caminhando a todo vapor. Arthur chegou com uma hora de antecedência e tiritava de frio me esperando abrigado do vento atrás de um muro de pedras contruído rusticamente. Ensacamos os equipamentos que iam ficar lá dois dias até a nossa volta e os colocamos contra a parede de pedra com algumas rochas por cima. Um grupo que acabava de chegar nos perguntou quando voltaríamos, pois queriam usar o espaço para a barraca deles. Com a nossa resposta, começaram a armar seu acampamento por ali, já que pensavam em deixar o campo 1 logo no dia seguinte, antes de retornarmos.

O campo 1 me era muito exposto,  na borda de um despenhadeiro bem íngreme e rochoso, mas as barracas se aglomeravam dali para cima ao longo de uma canaleta estreita que parecia mais abrigada dos ventos que vinham do alto.

Começamos a descida que foi desgastante, mas bem rápida – em torno de uma hora e meia.

O resto do dia tivemos sol, vento forte, neve, sol de novo, vento, neve outra vez…

Placas solares
Placas solares

O dia seguinte era mais um dia de folga e novamente passamos o dia bebendo água e urinando. Começava a ficar chato ter que ir tantas vezes ao rio para buscar água e revezávamos. Como desde 2006 não havia mais o sinal chileno de celular na montanha, começamos a nos distrair, pra não morrer de tédio, com os joguinhos do meu celular, que eu carregava com umas plaquinhas solares. Arthur começou a reclamar de uma dor de cabeça resistente à aspirina e atribuiu a ela a sua subida muito rápida. Talvez ele tivesse bebido pouca água. Sugeri a ele que não tomasse a aspirina diária que ele vinha tomando para ajudar a afinar o sangue pois isso poderia mascarar qualquer falta de hidratação. Eu usava a minha dor de cabeça como alarme. Quando ela começava de leve, eu bebia alguns litros de água e em pouco tempo ela desaparecia.

Chegou o dia em que deixaríamos o acampamento base e esse dia começou com um vento aterrador. Fomos dar uma última olhada na previsão do tempo e tiramos uma foto da tela do netbook da barraca de uma expedição comercial, para podermos consultar depois. Tínhamos planejado tentar o cume nos dias 9 ou 10. A previsão mostrava até somente o dia nove, com neve neste último dia. Imaginando uma melhora dia 10 ou 11, desmontamos a barraca, com muita dificuldade – pois ela teimava em achar que era um pára-quedas, e partimos.

Agora eu usava as botas de trekking, pois vi que na subida anterior não estava tão frio e nem foi necessário usar crampons. Tinha feito uns baitas remendos com silver tape e esparadrapo nas bolhas dos calcanhares e nas novas bolhas dos dedo mínimos que surgiram na descida. Como eu sabia que era capaz de fazer o caminho em três horas e meia, não me preocupei e demorei um pouco mais parando no caminho para comer algumas barras de cereais. Comecei a subir a última ladeira antes do acampamento e à medida que eu ganhava altura, o vento se tornava mais violento. O último trecho antes do platô que é o campo 1 era bem íngreme e, ainda no barranco, faltando um metro para alcançá-lo, pude ver as primeiras barracas do acampamento. Tomei então uma rajada de vento tão forte que tive que me agarrar com as duas mãos nas pedras ao meu lado e esperar um momento para não voar ladeira abaixo. Ao chegar, lá estava Arthur, quase roxo de frio, se abrigando atrás de uma outra parede de pedras. O grupo da barraca que ocupou o nosso lugar, não tinha desmontado acampamento e aguardava ainda ali pela melhora do tempo. Arthur tinha começado a levantar outra parede de pedra que abrigaria nossa barraca e, depois de descarregar minha mochila, ajudei-o a montar a nossa tenda. Vesti o casaco pesado de pluma para poder continuar o trabalho do muro no meio da ventania e ficou razoável.

No resto do dia, a turbina continuou ligada e nevando. No dia seguinte, o vento continuou forte e passamos boa parte do tempo tomando mate argentino – o chimarrão brasileiro. Era o nosso dia de folga antes do porteio para o campo 2. A diversão dos nossos vizinhos de barraca deve ter sido contar as vezes que saíamos para urinar. O chato de urinar no vento forte é que se tem que se preocupar em fazer o xixi e se esquivar dele ao mesmo tempo. Depois passamos a usar as garrafas dentro da barraca. Se com a urina, resolvíamos com  garrafa, com o resto não tinha escolha. Era abaixar a bunda nua no vento e na neve e tentar ser o mais rápido possível. Arthur começou com um papo de que ia fazer dentro da barraca mas discordei com veemência! Desagradável por desagradável, achei mais sensato continuarmos sentindo o frio na bunda do que o cheiro na barraca!

Pegar água no rio, quase sempre congelado, também era um castigo, o que ia lá sempre voltava com os dedos duros e doendo de frio. Mesmo com luvas.

Neste dia chegaram muitas barracas e conversamos com um dos guias dos indonésios. Seu nome era Abu e ele era peruano, de Huaraz. Arthur fez uma média comentando então que o camarada deveria ser bem forte e Abu se emplogou contando suas façanhas. Disse que havia feito a Polacos direta de um tiro só desde a entrada da rodovia em Punta Vacas e saiu por Horcones. Comentamos do Tocllaraju, montanha que escalamos em Huaraz e Abu se amarrou relembrando e simulando com as mão os movimentos com o piolet do lance negativo de gelo sobre uma grande greta. Disse que então não teríamos dificuldades na rota direta pois os lances técnicos eram mais simples do que os do Tocllaraju. Abu também comentou sobre a bota de Arthur, pedindo para ele tomar cuidado, pois ela era bem fria. Disse que já havia escalado com ela lá e que ele tinha que ser rápido, sem parar, usar um sachê de esquenta pés e recomendou levar um par de meias secas pra trocar quando as outras ficassem húmidas. Disse que o Aconcagua era a montanha mais fria que ele conhecia.

Durante a noite continuou nevando.

Caminho para o campo 2
Caminho para o campo 2

No dia do porteio, pra variar o vento continuava bem forte e arrumamos as coisas devagar. Quando finalmente deixamos o acampamento, uma fila indiana de vários grupos se espalhava por uma linha que era o caminho na encosta nevada. Alcançamos o último grupo e descobrimos que todos seguiam por uma bifurcação rumo ao acampamento Guanacos, para o que chamam de Travessia da Polacos, Polacos Transversa ou Duas Faces. Neste ponto, os grupos saem para encontrar a rota normal mais ou menos na altura de Berlim ou Cólera, com uma parada no acampamento Guanacos que também é conhecido como campo 3.

Tomamos o caminho da esquerda e começamos uma subida interminável. A altitude começava a fazer diferença. No final alcançaríamos os 5.800 m do acampamento 2. Somente mais um grupo de três homens e três meninas dos Estados Unidos seguiram conosco e também se instalaram aos pés da imensa geleira. A visão daquela massa de gelo que agora  sumia lá no topo entre nuvens escuras era ao mesmo tempo incrível e assustadora. O belo e liso tapete branco visto desde os 3000m de altitude agora se transformava num oceano encrespado de seracs, gretas e rimalhas como cicatrizes ou rugas que se franziam por causa da nossa proximidade. Pelo menos a inclinação parecia menor.

Uma das meninas me ofereceu biscoitos amanteigados, mas recusei, num gesto de educação irracional. Perguntei qual o caminho que eles faríam e me disseram que seguiriam para Cólera, numa variação da Rota Duas Faces. Esta opção usa um trecho de aproximadamente duas horas para ligar o campo dois com a rota normal e que também é chamada de Falso Polacos quando a aproximação é feita pela rota normal mas o ataque ao cume é feito pelo glaciar, no sentido inverso. Este caminho nós utilizaríamos em parte da nossa descida.

O Glaciar visto do campo 2
O Glaciar visto do campo 2

A menina então perguntou qual a nossa rota.

Apontei para o Glaciar e disse:

-The Polish Direct.

-The glaciar? Good Luck! – Respondeu em inglês desejando boa sorte.

Que surpresa. Tanta gente nos acampamentos inferiores e somente eu e Arthur pra entrar nesse mar de gelo…

Iniciamos a descida para o campo 1 junto com o grupo de americanos. No campo dois nenhuma viva alma, somente nossos equipamentos.

18 thoughts on “Glaciar dos Polacos”

  1. Fala Jr. Pude sentir a vibração nas palavras do teu relato ( 1ª parte). Isso é muito bom e ajuda na recuperação. Li agora sua resposta sobre o congelamento.Já passei um perrengue levemente parecido pois quando fui a primeira vez no Aconcagua, via normal,cheio de planos e sonhos, estava calçando uma bota La Sportiva mista.Inocentemente achei que seria suficiente.Ainda bem que o bom senso prevalesceu e decidi voltar de Nido, com os dedos do pé direito duros e sem sensibilidade.Nada de mais, felizmente.Mas, uma lição eu aprendi: Quanto menos se respeita a montanha, mais perigosa fica a escalada.Jamais se pode subestimar uma montanha e ainda mais a Sentinela de Pedra. Um grande abraço e melhoras.

  2. Junior, um livro só é pouco pra vc contar suas aventuras e historias! Mas seria uma satisfaçao ler, vendo só pela amostra daqui! Parabens pelo feito e pelo relato, pq é no relato q nós,simples mortais (ehehheh) podemos sentir um cadinho do seu feito! Valew!

  3. “sentei num tufo daquelas gramíneas e imediatamente senti as nádegas pegando fogo! ”
    Então quer dizer que vc ficou com fogo no rabo e nao me falou nada????????

    hehehehehehhehehehehhehehehe
    Kmon cara… seus textos estão ficando 10!!!!

  4. Meu velho, estava esperando por isso… pelo seu relato repleto de detalhes e de emoção… irado demais! Parabéns a vcs mais uma vez… E como tá o pé do Arthur?

    Abraço!

  5. Paulo,
    mais uma vez me empolgo e me emociono com seus relatos. Além de ser um montanhista brilhante vc escreve como ninguém.
    A cada relato seu eu entendo mais os seus motivos para gostar e viver neste esporte. É isto que faz o sangue correr nas veias. Apesar dos riscos, a experiência adquirida em cada jornada e a sensação de superação e conquista não tem preço.
    Parabéns mais uma vez a vcs por mais esta vitória.
    Um grande abraço, Gisele

  6. Hi,
    I´m the guy who you met on your way down to C1. We took some photos of you on the glacier on your summit day. I sent you an email on the adress you gave me. Obviously it did not arrived. Write me your correct adress so I can send you those photos.
    I hope your toes are all right already.
    Best regards
    Milan Keslar

  7. Paulo,
    Sua narrativa é rica e me emociona sempre que a leio.
    Pense em transcrever os seus relatos e os do Arthur para um livro, que tal?
    Boas montanhas!
    Beijos

  8. Junior, só li este relato hoje… está show mesmo. Foi realmente “animal” esta escalada de vocês, fiquei imaginando o caminho todo enquanto lia, temos poucos livros sobre escalada alpina de Brasileiros, você poderia em breve enriquecer esta biblioteca com um livro, espero que você consiga mais alguns feitos, tem muita montanha ainda te aguardando! Abç. Dago

Deixe um comentário