A Escalada que Virou Travessia
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| A Escalada que Virou Travessia |
| Pico Humboldt |
| A Travessia que Virou Escalada |
| Vencidos por nós mesmos |
| O Teleférico de Mérida |
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A primeira dificuldade foi decidir aonde ir no feriado de carnaval. Normalmente cinco dias são mais do que suficientes para curtir uma viagem. Mas não uma viagem internacional cujo objetivo seria subir uma alta montanha que exigisse aclimatação. Era isso que eu queria. Mas ao conversar com Emilia, que acabava de voltar da temporada 2008/2009 do Aconcagua, ouvi:
Emilia queria fazer a Travessia do Gelo Continental Sul.
Fui pesquisar sobre esta “travessia-passeio”...
Neste dia encontramos vários grupos descendo em sentido contrário, mas nenhum subindo.
Cruzamos uma espécie de passarela estreita de metal e madeira cravada numa parede de rocha. Mais adiante, em um trecho com um lance de escalada, precisamos transpor uns seis metros de uma parede rochosa para continuar o caminho. Na metade, me vi numa situação difícil e sem força para puxar o meu peso mais o da mochila para completar o lance e imaginei que teríamos que passar as mochilas depois. Deixei a mochila no platô em que eu me encontrava e consegui escalar este trecho com facilidade, quando desta vez me utilizei de uma agarra que eu não vi de primeira.
Emília ficou com a difícil tarefa de erguer a minha pesada mochila, passando-a para mim e reclamou do fato de eu não ter trazido-a comigo. Subiu com facilidade com sua mochila nas costas mesmo, utilizando a agarra e os bastões.
Mais alguns trepa-pedras depois, chegamos à espetacular Lagoa Verde. Um imenso lago rodeado de grandes porções rochosas e com o Pico Humboldt ao fundo, com seu glaciar que o abraça a alguns metros abaixo do cume rochoso.
Chegamos num largo campo ainda no mesmo vale onde repousava o imenso lago e tivemos uma surpresa: próximos a algumas barracas, bovinos pastavam tranquilamente a 4.000 m de altitude.
O Pico Humboldt
No dia seguinte, acordamos e iniciamos os preparos para a escalada do Pico Humboldt. Os guarda-parques nos aconselharam a escalar o Humboldt pela rota normal, começando por uma outra laguna mais a frente chamada El Suero e descê-lo pelo glaciar em linha reta para o nosso acampamento. Este último caminho seria muito rápido e simples. Caminhamos alguns metros e encontramos o pessoal que estava nas barracas mais a frente e fomos em sua direção. Um deles fotografava do lado de fora da barraca e conversou conosco. Disse que escalaram o Humboldt no dia anterior e agora se preparavam para descer a Tabay. Não soube dar muitas informações do caminho, somente que passaríamos por duas gargantas assustadoras... Agradecemos e continuamos.
O caminho vai fazendo uma curva à esquerda a medida que sobe. No conjunto montanhoso que contornávamos, Emília apontou uma cachoeira e disse que o caminho podia ser por ali. Observei o que ela apontava e não consegui distinguir nenhum local que pudesse ser caminho.
- Ali é uma parede!
Uns quarenta minutos depois chegávamos à Laguna El Suero. Começamos a analisar todas as probabilidades de caminho e só encontramos um, uma garganta de terra e pedras soltas íngreme. Começamos a subir pela rampa de cascalho e deixei Emília ir na frente, uma vez que as pedras que o primeiro soltava, rolavam perigosamente no segundo. Vez ou outra me abriguei atrás de um grande bloco, protegendo-me, antes de continuar a subir.
Emília já ia mais acima quando avistei um belo totem à esquerda, idicando um local de saída daquele suplício. Para chegar até ele, precisei cruzar um trecho onde a rampa era muito íngreme com algumas dezenas de metros de queda para baixo. Cheguei a tirar o piolet para cravar na terra de forma que eu pudesse sentir um pouco mais de segurança. Gritei para Emilia que procurasse uma saída também mais acima. Desta forma, alcançamos um caminho rochoso que descia rumo ao imenso campo de pedra, cuja forma, de longe, se assemelhava a um papel alumínio amassado aberto gigante. E nós, micróbios, perambulávamos agora em meio a infinitas dobras, descobrindo totens que indicavam um caminho naquele labirinto de ondulação de pedra.
Chegamos a um bonito lago de cor verde esmeralda que nos recepcionava daquele "andar". Cortamos todo o campo rochoso e, no lado oposto, começava agora uns lances de escalada numa rocha mais lisa, sem agarras, após uma canaleta.Tentei primeiro subir por um trecho mais protegido de uma grande queda, mas que se mostrou mais difícil e eu não consegui. Emília, impaciente, não esperou e subiu simultaneamente um pouco mais na beira, o que resultaria numa queda de uns cinquenta metros, caso escorregasse. Segui seus movimentos, enquanto recebia críticas do modo como eu apoiava o pé:
- Você está pensando que está escalando! Apoie a sola do pé inteiro, não somente a ponta da bota!
-?
Eu poderia tentar explicar que com aquela bota rígida eu não conseguia dobrar o pé e o tornozelo como a dela e etc, mas, já tenso com a escalada, só consegui pensar em um grosseiro: "Fica na tua!"
Mais acima, Emilia, que ia na frente, começou a galgar outro desmoronamento de terra e pedras bem íngreme rumo a uma crista. Eu vinha mais abaixo tentando dar um passo e escorregando dois. Emília finalmente alcançou a crista e gritou dizendo que o caminho não era por ali. Do outro lado havia um abismo. Duas massas de rocha impediamque ela pudesse seguir pelo topo da crista. Conseguia avistar o Pico Humboldt de lá e avisou que iria descer. Olhei para os lados então e encontrei um totem à direita e gritei para ela. Poucos metros acima de mim, havia um bloco de pedra do tamanho de uma pessoa, parecendo firme, com uma fita de escalada amarrada em volta. Imaginei que fosse usada para fazer um rapel, descendo pela rampa e pelo lance de escalada. Me solterei na fita, aguardando Emília descer, uma vez que ela estava com dificuldades para desescalar e ficava nervosa esboçando alguns soluços.
Pegamos o caminho indicados pelos totens e alcançamos a crista, mas desta vez, nada mais estava entre nós e o glaciar da base do cume do Pico Humboldt, a não ser blocos menores, que conseguíamos transpor cuidadosamente para não escorregar pelos abismos laterais.
Chegamos na borda do glaciar, nos encordamos e instalamos os crampons nas botas. Em torno de vinte minutos, cruzamos o belo tapete branco e alcançamos as rochas que pontilhavam na base do cume rochoso em formato de barbatana. Descalçamos os crampons e deixamos o material que não utilizaríamos, inclusive a mochila com a corda, uma vez que a crista pela qual alcançaríamos o topo não parecia ter maiores dificuldades. Começamos a subir, por vezes beirando alturas consideráveis até alcançar o ponto mais alto.
Algum tempo antes eu havia combinado com Emília que se não chegássemos até as 15:30 no cume, nós voltaríamos, já que tínhamos todo um caminho desconhecido para a descida e o céu começava a ser tomado por nuvens cinzas. Agora estávamos felizes por terminar antes de nosso horário limite e tirávamos várias fotos.
Até começar a nevar.
Me dei conta que já era o bastante e aproveitei que eu estava com a máquina de Emília nas mãos e a guardei em sua capa que eu também trazia comigo para aliviar Emília do volume incômodo.
- Chega de foto, esta na hora de descer!
Emília ficou brava com o fato de eu impedi-la de tirar mais fotos e discutimos brevemente antes que ela iniciasse a descida na frente se distanciando em silêncio sem proferir nenhuma palavra comigo. Passei um certo desconforto caminhando por uma borda estreita e abaulada, que, já molhada pelos flocos que derretiam em contato com a rocha, não me deixava abstrair um vazio de algumas dezenas de metros ao lado.
Ao chegar no local onde deixamos as mochilas, discutimos um pouco mais. Emília achava que alguns minutos a mais no topo não fariam diferença alguma e só queria tirar mais uma foto. Retruquei que uma fração de segundo pode determinar um acidente. Um minuto ou dois de neve mais intensa poderiam nos fazer escorregar numa das rampas ou bordas que passamos com o gelo acumulado. Se ao menos tivéssemos trazido a corda poderíamos enfrentar condições mais adversas até com mais segurança. No meio da discussão, usei como argumento também o fato de ter uma filha que dependia de mim. Emília falou pra eu não apelar.
Mas um dependia do outro para atravessar o glaciar, e continuar por ele descendo uma certa distância rumo ao nosso acampamento e nos encordamos.
Tomamos a direção mais a direita e passamos do ponto onde, na vinda, iniciamos. Agora o glaciar começava a tomar um bela inclinação para baixo e eu vinha mais atrás, atento a qualquer escorregão. Havia um leve rastro na neve e pedi que Emília, que ia à frente e mais abaixo, se mantivesse nesta linha para que fosse mais fácil descobrir o caminho pelo campo rochoso no final do glaciar. Mas as marcas caíam para a esquerda, num ponto onde a inclinação aumentava e nova discussão se fez quando Emília preferiu seguir reto.
Terminávamos o glaciar e imaginei quão interessante seria este outro caminho, se utilizado na subida. A neve apertava e tínhamos um caminho desconhecido pela frente. Emília partiu na frente, descendo e seguindo totens. Este novo trecho lembrava um tobogã gigante com suas ondulações petrificadas, mas sem maiores dificuldades comparado ao outro caminho que usamos para subir. Em determinado ponto, realmente desci como num tobogã, escorregando pela pedra lisa e molhada em uma rampa de dois metros.
Não havia dificuldade, bastava seguir o gigantesco leito do glaciar em linha reta para baixo e acompanhar a transformação do terreno. Primeiro, o manto rochoso deu lugar a um leito pedregoso com grandes rochas soltas que tornavam o caminhar por elas um martírio e, em certo ponto, com algum risco, uma vez que pisávamos em grandes rochas que se movimentavam com instabilidade. Neste momento, ultrapassei Emília, que diminuia seu ritmo. Fugindo do terreno de pedras soltas, procurei um campo da vegetação de folhas de fleece. Estas agora possuíam um porte bem maior e desenvolviam hastes com uns dois metros de comprimento, onde brotava uma estranha flor. Naquele cenário, onde a neblina havia preenchido a atmosfera, com aquelas estranhas plantas e a pouca luz do dia que findava , eu me sentia explorando um planeta alienígena. Mas não me importava com o avançado da hora, pois a neblina não me deixava ver muito além e a impressão que eu tinha era que a qualquer momento encontraria a trilha no fundo do vale da Laguna Verde, que nos levaria ao nosso acampamento.
Fui assim despreocupado, até começar a distinguir um barulho de água. Ou pior: cachoeira! Eu chegara no topo da cachoeira que avistamos lá de baixo, quando passamos rumo ao Humboldt. Caminhei até a beira para me certificar e senti um misto de revolta e medo. Já me imaginava quase dentro da barraca e agora tinha que aceitar a possibilidade de um bivaque sem saco de dormir e todo molhado num lugar que sempre nevava ou chovia no fim do dia. Toda uma noite de frio e perrengue passou diante de meus olhos em um segundo. Devia ser umas 18:20, não tínhamos muito tempo pra pensar e precisávamos agir rápido. Aguardei Emília se aproximar e gritei:
- Ferrou Emília! Chegamos no topo da cachoeira!
Emília, percebendo um tom meio assustado na minha voz, pediu que eu ficasse calmo. Falei para Emília procurar algum caminho do lado esquerdo da margem e eu, que estava mais próximo do rio, o atravessaria e procuraria do outro lado. Ao cruzar o rio, pisei numa pedra escorregadia e tomei um belo tombão, com um bonito rodopio carpado latitudinal e quase mergulhei de ponta cabeça numa piscininha. Levantei surpreso por não ter me machucado, afundando os pés até o joelho na água no riacho e segui um caminho pisoteado que parecia continuar na outra margem. Olhando mais ao longe, eu conseguia ver o perfil do terreno e ele parecia virar uma rampa mais suave. Talvez aquele caminho fosse mais fácil, até porque parecia que adentraria uma florestinha, e provavelmente fosse mais abrigado de pirambeiras.
Gritei a Emília que achara um caminho e não pude entender o que ela falava ao longe. Quando ela se aproximou, tentamos seguir pelo caminho que encontrei, mas alguns metros depois ele desapareceu, demonstrando ser apenas marcas de pisoteamento de outros que, como nós, procuraram erroneamente uma saída por aquele lado. Emília explodiu dizendo que eu só fazia o que eu queria e não a escutava. (!) Perguntei se ela tinha achado algo do outro lado.
- O carinha da Laguna Coromoto disse que o caminho era pela esquerda da cachoeira! - Esbravejou irritada.
Emília se referia a um grupo que encontramos no início do segundo dia e que conversaram em espanhol, enquanto eu filmava distraidamente.
Naquele momento fiquei triste com o rumo que aquele desentendimento tomava e comecei a aceitar desistir da escalada do Pico Bolívar. Não seria nada agradável escalar uma montanha com aquele clima e aquela rixa que se formava. Podia até ser perigoso, como mais tarde constatei.
A escuridão da noite chegou indiferente aos nossos problemas. Emília tomava a frente e descia por um caminho pisado na direção que ela havia tomado anteriormente. Eu precisava encontrar minha lanterna dentro da mochila e já que havia escurecido mesmo, aproveitei para ingerir alguma coisa e tentar reunir um pouco mais de energia para expulsar o desânimo e todo um cansaço de um dia inteiro de atividade. Emília gritou alguma coisa lá de baixo que eu não compreendi. Devo ter gritado perguntando se havia caminho mas também não entendi nenhuma resposta e iniciei a descida. O caminho serpenteava entre tufos de mato e pedras e logo se revelava bem pisado e marcado. Um trecho horizontal e estreito exigia certo cuidado, mesmo sem conseguir ver a altura da queda por causa da escuridão. Mais abaixo uma desescalada de uma parede com uns cinco metros exigia mais atenção e finalmente terminava. Caminhamos vinte minutos em silêncio até o acampamento e dormimos sem nem jantar.
A travessia que virou escalada
Na manhã do quarto dia, não acordamos tão cedo e nos preparamos sem pressa. Neste dia, faríamos uma travessia até o próximo acampamento, que seria no Lago Timoncitos. A distância neste dia era a menor de todas e olhando para a carta topográfica de escala 1:50.000, o caminho parecia ser simples, na maior parte seguindo uma curva de nível no relevo, com exceção do primeiro passo – passagem utilizada para vencer uma cadeia de montanhas – e não esperamos maiores dificuldades. Emília já vinha carregando a pesada corda de 70 metros e ofereci para carregar um saco cheio de comida liofilizada que ela também trazia na sua mochila.
Emília terminou de se aprontar e começou a andar primeiro enquanto eu terminava de fechar a mochila. Instantes depois eu já caminhava também. Em poucos minutos, eu alcançava a outra área de acampamento, onde no dia anterior, o venezuelano que conversou conosco esteve acampado. Desta vez não encontrei ninguém, o local estava vazio. Emília já havia passado por ali e não parou. Eu resolvi dar uma investigada no local e descobri que a turma que lá acampara, havia deixado lá vários mantimentos entocados embaixo de pedras. Protegidos do sol desta forma, os alimentos se conservam no clima frio como se estivessem na geladeira. Eu e Emília achávamos que tínhamos trazido pouca comida e estávamos preocupados com isso. Resolvi então me precaver, catando o que fosse possível. Encontrei meia dúzia de tomates, duas cebolas, maracujá, limão, lata de molho de tomate, de leite condensado e coloquei tudo na mochila. Perdi vinte minutos neste reabastecimento e só voltei a encontrar com Emília no Lago El Suero. Ela não deve ter entendido minha demora, mas preferi esperar para fazer uma surpresa no jantar com o que eu havia conseguido.
De onde nos encontrávamos a canaleta de cascalho e terra que escorria do alto parecia uma parede. Depois de alguns minutos estudando o local e tomando fôlego e coragem, seguimos por uma trilha que foi serpenteando ao lado da língua de cascalho até desaparecer, dando a entender que teríamos que seguir pelo penoso terreno inclinado de pedras soltas e terra fofa. Procurávamos identificar alguma trilha de terra pisada, mas em vários momentos nos víamos em situações delicadas nos equilibrando com o auxílio dos bastões, distribuindo o peso cuidadosamente entre os quatro pontos de apoio e concentrados na pisada para não escorregar e rolar uma ou duas centenas de metros. Começamos a encostar na lateral direita daquela canaleta para tentar fugir do meio que era mais exposto, mas aí começamos a encontrar blocos maiores de rocha que nos desgastava com estes trepa-pedras. Próximo a um grande bloco, paramos para descansar num local um pouco mais protegido de um possível escorregão. Neste local, avistei um grande totem num platô de rocha metro e meio mais acima, na borda da canaleta. Aquilo era a possibilidade de sair daquela canaleta maldita. Mas seria este o caminho correto? Após uma breve dúvida, decidi investigar. Escalei o balcão e alcancei o platô. Ali, ao lado do totem, eu procurava o caminho ou outra marcação. Emília me seguiu e avistei outro totem, mas desta vez, a escalada não estava tão fácil. O totem estava a uns quatro ou cinco metros acima de minha cabeça e para alcançá-lo, nada de boas agarras como até então tínhamos. Dei duas passadas e nem alcancei o montinho de pedras. Resolvi descer. Aquilo estava ficando muito íngreme e arriscado. Apesar de este totem me observar imperativamente, duvidei de que aquele fosse o melhor caminho, ou mesmo um caminho. Emília seguiu pelo platô que se estreitava até ficar da largura de um parapeito. Era assustador vê-la seguindo pelo estreito caminho onde precisava ficar rente a parede, usando as mãos nas agarras e seguir de lado, com o mochilão no vazio. Ainda mais sem saber se haveria caminho. Quando se distanciou uns quinze metros, gritei perguntando se havia totens. Emília confirmou que dava para seguir por ali e avancei no trecho horizontal. No meio da passagem, um desnível de meio metro tornava aquela tarefa mais desconfortável. Ao fim do parapeito, Emília já avançava, desta vez para cima, galgando umas barrigas de pedra. Este novo trecho era mais fácil, com um ou outro pequeno platô entre os lances mais curtos de escalaminhada, mas nada que segurasse de uma queda de centenas de metros caso escorregássemos. E esta angústia se acentuou quando começou a nevar. A neve derretia em contato com a rocha, tornando-a molhada e estar ali no meio daquele mar de pedra com uns cinquenta metros ou mais ainda para cima me deixava preocupado. Pensei em utilizarmos a corda, subindo unidos a ela, mas não havia bicos de pedra ou saliências que pudéssemos usar para proteger. O jeito era continuar subindo, antes que aquilo tudo ficasse molhado demais. O que mais assustava era o fato de que subíamos sem ter certeza de que lá no alto encontraríamos uma saída. E se aquele não fosse o caminho da travessia? E se estivéssemos numa rota de escalada de outro pico? E se o caminho certo continuasse pela canaleta de cascalho? Alguns sinais nos faziam crer que ali pelo menos passara alguém.
À medida que nos aproximávamos da crista, o caminho perdia inclinação. Chegamos à base de um espigão rochoso de formas agressivas, apontando para o céu nublado. Neste momento, a neve deu uma trégua. Mas se agora tínhamos certeza de que seguíamos um caminho mais demarcado e já com alguns totens, por outro lado a tensão continuava, pois freqüentemente nos víamos caminhando em solo arenoso e escorregadio a poucos centímetros de despenhadeiros. Nestas horas o bastão era imprescindível, mas logo vinha um trepa-pedra e o jeito era escalar com os bastões pendurados no pulso. E, vez ou outra, nos víamos em situações difíceis por causa disso. Numa delas, eu vinha na frente e o caminho pisado terminava numa pequena canaleta rochosa de uns três metros de altura. O problema é que pra baixo ela continuava por uns 300 em forma de uma parede de cascalho de uns 70 graus de inclinação. Subir por esta canaleta não seria difícil, ela tinha a largura menor do que minhas pernas abertas e várias agarras e saliências nas suas paredes que também funcionavam como degraus. Subi com extremo cuidado, testando a aderência da bota e cada agarra antes de apoiar o meu peso. Era preciso estar extremamente consciente dos meus recursos e limitações naquela hora. Compensava o desequilíbrio da mochila e atentava para a posição que o bastão tomava em cada movimento dos meus braços, para que no próximo, eles não se prendessem de alguma forma. Apesar de fácil, aquele local não admitia erros. Com um pé em cada lateral da canaleta, quase como numa chaminé, numa das passadas, a ponta do bastão de trekking entrou no laço do cadarço da bota esquerda. A situação era das piores. Não dava para forçar, pois o nó era duplo e não se desfaria. Eu não podia usar o braço do bastão para tentar ajeitar a confusão, pois eu dependia inteiramente dos meus três apoios restantes. A única solução era prolongar por mais tempo o esforço de ficar naquela posição, que inicialmente duraria um segundo, enquanto eu tentava voltar o filme em câmera lenta, desfazendo o movimento de forma idêntica a que eu fiz. Isso geralmente dava certo e deu. Já havíamos estado neste tipo de situação anteriormente por pelo menos uma vez cada um, mas quando pensávamos em guardar os bastões na mochila, em outro trecho delicado eles se mostravam importantes. Pedi cautela para Emília neste ponto, e após alguns metros, alcançávamos a passagem mais alta daquela cadeia de montanhas. De um lado, podíamos ver o imenso vale por onde viemos, onde estava a Laguna Verde lá longe, no final, com todo o corredor de montanhas. Do outro lado, outro vale maior ainda que descia indefinidamente e finalmente o caminho que seguia a curva de nível. Estávamos entre dois montes de pedras e o vento era canalizado, mas não estava frio. Ao sentarmos para descansar, a observação de Emília se fez minha também:
- Aterrorizante!
Estávamos ainda muito assustados com o caminho e com a adrenalina correndo a mil nas veias. Eu já havia passado por lugares muito mais simples que aqueles e que foram protegidos por cabos de aço ou cordas. Mas até então nem um grampinho na rocha encontramos. Só queríamos agora uma descida mais tranqüila pelo outro lado.
Vencidos por nós mesmos
Emília pediu que eu reparasse sua mochila que vinha descosturando no ponto onde a armação de alumínio era presa. Esta barra de metal começava a sair, machucando a menina e deixando a mochila torta.
Ao abrir o meu potinho de costura descobri que tinha tirado a agulha de lá! O jeito foi desencapar uns arames de saco de pão que eu tinha e reparar o defeito costurando com este arame fino. Ficou bom e agüentou até o fim.
Recomeçamos nossa tarefa de alcançar o Lago Timoncitos, citado na nossa carta. Após alguns trepa-pedras e descidas, a trilha se tornava plana e larga, totalmente diferente da parte rochosa da cadeia de montanhas que cruzamos. Numa parada para descanso, olhávamos para trás tentando identificar o caminho que fizemos em meio a tanta pedra. Um tracinho bem no alto desta cadeia me fez acreditar que uma pessoa talvez estivesse vindo mais atrás da gente, mas ao tomar nas mãos uma pequena luneta que eu levara, consegui identificar uma cruz, talvez no ponto correto onde tivéssemos que ter cruzado. Deveria ser no topo da canaleta de cascalho. Mais tarde, procurando fotos desta travessia na internet, constatei ser realmente o topo da canaleta. Então, na realidade, nós tomamos um caminho alternativo ao abandonar esta que deveria ser a rota mais segura ou mais rápida.
Após uma pequena elevação, já caminhávamos sobre um solo coberto de uma relva verde, rasteira e pisada, quando chegamos a uma área aberta, parecida com um local de acampamento, mas encharcado. Aproveitamos para descansar ali e fui verificar nosso mapa. A laguna Timoncitos, era a única que não trazia uma representação gráfica de um laguinho, somente constava o seu nome na carta. Isso dificultava descobrir sua exata localização. Analisando as informações da carta, comecei a acreditar que a laguna Timoncitos pudesse ser aquele local mesmo onde estávamos, uma vez que havia um desnível de uns 100 metros mais a frente no mapa tal qual eu via no morro em frente.
Tentei explicar minha teoria para Emília que me cortou dizendo que não daria para saber que aquele morro tinha 100 metros, e quando tentei concluir o meu raciocínio a menina explodiu novamente dizendo que eu só fazia o que eu queria. Emília recomeçou a caminhar ainda discutindo algo como “eu devia perguntar ao bezerro aonde ir”. Se a situação não fosse tensa seria até engraçado. Realmente, a essa altura, parecia que somente nós vagávamos pelo Parque Nacional Sierra Nevada. Havia terminado o feriado de Carnaval e achamos que todo mundo que estava na montanha tinha ido embora. Há dois dias não encontrávamos com ninguém a não ser um ou outro bovino que, surpreendentemente pastava a mais de 4.000 metros de altitude. Ainda fico intrigado como os bois do vale da Laguna Verde chegaram ali, até então eu só tinha conhecimento de bodes e cabritos escaladores...
Fui atrás de Emília sem nem me lembrar de colher alguma água. Depois da Laguna El Suero, nós não encontráramos mais pontos de água até aquele charco. Após uma ou outra mergulhada na lama até a canela, salva pela polaina de ser empapuçada, o caminho começava a subir de forma íngreme.
Nesse momento eu já caminhava à frente, irritado pelo fato de achar que estávamos indo rumo à estação do teleférico de Mérida, que eu esperava encontrar a qualquer momento, no final desta subida. Eu já contava com duas hipóteses, a primeira, a que eu estava mais inclinado, era de desistir do Pico Bolívar, ante a animosidade surgida na nossa dupla. A segunda era de ainda escalá-lo, mas partindo do teleférico e não do Lago Timoncitos, que eu acreditava já ter ficado para trás. Mas, uma hora depois, eu começava a me preocupar com outras coisas. Já eram cinco e dez da tarde e não chegávamos a lugar nenhum.
A subida terminara e eu estava em uma grande área rochosa plana. À minha direita, uma montanha que me lembrava o Agulhas Negras e eu supunha ser o Pico Bolívar. Próximo a mim, um poste de madeira ao lado de uma bifurcação no caminho dava a entender que possivelmente ali já houve uma placa pregada. Este outro caminho saía perpendicularmente na direção do pico rochoso. Tava na cara que aquela era uma das rotas para o Bolívar. Eu precisava decidir se continuava ou parava por ali. Enquanto Emília Takahashi não chegava, depositei minha mochila numa bancada de pedra e fui inspecionar o local. De início, continuei pelo caminho para ver o que havia depois de uma curva, 50 metros à frente. Desanimei. Para quem esperava ver o teleférico, só avistei mais caminho descendo, subindo uma encosta e desaparecendo após um morro. Uma nuvem branca tapava qualquer outra coisa que não fosse isso. Voltei para onde estava minha mochila, desta vez procurando um espaço no solo que não fosse de pedra e irregular para armar a barraca, caso decidíssemos ficar ali. Emília chegou como que cinco e meia e se livrou da mochila no chão para descansar um pouco. Tentei explicar brevemente a situação para ela, mostrando nossas opções, certo de que ela fosse preferir acampar por ali mesmo. Mas foi talvez uma coisa que eu disse que a tenha motivado continuar:
“... de acordo com o mapa, devemos estar a uns quinhentos metros para aquela direção da estação do teleférico...”
- Então vamos continuar! – Disse já colocando a mochila nas costas e dando os primeiros passos.
Surpreso, eu não estava nada animado por correr o risco de ser pego pelo escuro da noite, que chegaria muito breve, no meio de algum lance perigoso, como os que havíamos estado naquele dia.
- Eu vou ficar aqui mesmo! – Falei isto já indo buscar minha mochila e levando para um local onde imaginei ser mais confortável para armar acampamento.
Neste momento, deu-se início a mais ferrenha discussão até então. Emília me acusou de estar fazendo pirraça. Eu tentava convencê-la de que seria arriscado continuar naquele avançado da hora por um caminho que desconhecíamos. Emília argumentava que estávamos a 4.500 m de altitude e morreríamos de edema sem água. Perguntei se ela estava sentindo algum sintoma de mal da altitude, como dores de cabeça e ela afirmou sem muita convicção que sim. Lágrimas rolavam e ela me implorava que não ficássemos ali. Eu me sentia como se tivesse decretado sua pena de morte. Disse a ela que poderia ficar com toda a minha água, eu ainda possuía uns 300 ml e muitas frutas. Acredito que ela não tenha entendido nem dado importância pra este detalhe das frutas, eu não tinha contado que catara tantas frutas e legumes no último acampamento e agora não conseguiria explicar em meio ao calor daquela discussão. Outro argumento que usei foi de que se passássemos realmente mal por causa da água, ainda poderíamos voltar meia hora ou uma hora descendo até o charco pelo qual passamos. Para frente desconhecíamos o caminho e se havia realmente pontos de coleta de água.
Enquanto discutíamos, eu já quase terminava de armar a barraca, fixando os últimos ganchos do sobre-teto e acho que isto desesperava ainda mais Emília. Em sua cabeça, passar a noite ali sem água seria a morte certa, mas ela se via obrigada a isso pelo fato de só haver uma barraca. Eu ainda tentei argumentar que aquele clima era muito mais úmido do que o dos Andes na região do Aconcagua, onde ela havia estado em janeiro. Tentando por um fim naquele inferno e imaginando que ela não fosse aceitar minha oferta, cometi o erro de dizer que ela então poderia partir sozinha, levando a barraca pois eu faria um bivaque, dormindo ao relento com o meu saco de dormir. Ops! Mas eu não estava com meu saco de dormir! Eu viajava com um saco dela, de penas de ganso, que era mais leve e não tão quente. Mais apropriado para aquele clima. O meu saco de dormir fora confeccionado por mim na ocasião para o Aconcagua, e era muito mais pesado, recheado com pluma sintética, além de ser coberto por ripstop resistente á água. A pluma ou pena de ganso perde parte de sua propriedade isolante quando úmida e me lembrei que nevava e chovia todas as noites. Mudei de idéia rapidamente, mas já era tarde. Emília já rodeava a barraca sacando todos os specs e tomando o sobre-teto nos braços.
Tentei impedi-la de continuar desmontando a barraca, segurando também uma ponta da lona que ela agora prendia nas mãos e começamos a brigar ridiculamente por partes da barraca que inocentemente sofria estrangulamentos e puxões numa espécie de cabo de guerra. Noutro momento, tropeçamos e rolamos no chão sem soltar o nylon laranja da pobre barraca. Num flash de lucidez consegui me transportar para fora daquela situação deplorável e clamei para Emilia ver a que ponto chegávamos e pararmos com aquilo, afinal estávamos sozinhos num ambiente rigoroso. Nossa segurança dependia de alguma sensatez. Não estávamos discutindo para decidir que programa urbano de final de semana faríamos.
Não adiantava, eu não via solução para aquele impasse e eu começava a me preocupar com a luz do dia que se esvaía e com a barraca que seria despedaçada a qualquer momento. Tentei desempatar aquela disputa de alguma forma e argumentei que eu havia organizado a expedição, eu tinha mais tempo de montanha, eu era o mais idoso e até que era o mais forte! Tentava de algum jeito agregar peso ao meu voto por não continuar. Emília continuava se agarrando numa ponta do sobre-teto enquanto eu segurava a outra.
Talvez por minha forma estranhamente calma e racional de dizer que se aquilo continuasse, eu partiria para agressão física, eu não tenha convencido Emília e esta tenha ficado realmente surpresa quando desferi um tapa no seu capacete.
E infelizmente foi somente isto que pôs fim à peleja. Funcionou como um tiro disparado para o alto no meio de um tumulto. Emília não disse uma palavra e partiu com sua mochila. Eu ainda esperava que ela voltasse algumas dezenas de metros depois, mas meu tapa doeu mais no seu orgulho do que na minha mão...
Terminei de armar a barraca e fui tentar avistá-la. Consegui identificar a sua figura já desaparecendo na escuridão e neblina enquanto terminava de galgar a encosta.
Naquela noite foi difícil dormir. Me senti mal por estar confortável e quente, com alguma água e comida enquanto ela provavelmente estivesse ao relento, somente com algumas barrinhas de cereal e sem água, como ela dizia. Pensamentos me assombraram a noite toda. Imaginava o que teria acontecido à menina, escutava ruídos ao redor da barraca e imaginava que fosse ela voltando, arrependida ou enlouquecida para me atacar com o piolet! E se acontecesse alguma coisa com ela? Teria eu agido corretamente ou devia ter travado outra batalha para impedi-la de partir? Teria eu esse direito? Um dos motivos que me fizeram brigar pela barraca era também porque esta era uma forma de tentar impedi-la de continuar. Se ela desaparecesse aquilo me perturbaria a vida toda. Ao tentar imaginar como seria o caminho pela frente eu me lembrava dos lances arriscados por que passei ao longo do dia. Só consegui relaxar e dormir, próximo de amanhecer.
O Teleferico de
Merida
Quando finalmente acordei da longa noite que eu tive, me deparei com um belo dia ensolarado de céu azul e quando saí da barraca e olhei ao redor, me assustei. A neblina da noite anterior cedia espaço a uma outra paisagem. Lá estava a estação do teleférico, exatamente na direção que eu imaginava, porém, com um detalhe: ela estava encravada no topo de uma parede de rocha! Estremeci tentando imaginar o que acontecera com Emília. Certamente ela não passou por ali à noite. Mesmo de dia já era difícil tentar descobrir qual seria o caminho...
Comecei a levantar meu acampamento e arrumar a mochila preocupado com a garota. Em certo momento me virei e, surpreso, vi Emília sentada no final do grande platô, a uns cem metros de mim como se fosse a visão de um fantasma. Fiquei contente por ela não ter desaparecido, mas, por outro lado, isto significava que ela passara algum perrengue a noite... Fui caminhando em sua direção e ao chegar perguntei:
- Não sei... estou confusa... Não consegui achar o caminho... – Respondeu em meio a lágrimas.
- Está com sede? Tem água?
- Eu bebi. Mais a frente tem outro acampamento onde dormi e tinha água.
Emília tinha feito bivaque, dormido somente com o saco de dormir, e passado muito frio durante a noite, acordando coberta de gelo.
Voltei para terminar de me preparar e logo ela já não estava lá. Provavelmente ela deve ter vindo até mim para se certificar de que eu não tinha voltado ou tomado outro caminho, deixando-a sozinha na montanha. Logo eu já caminhava subindo a encosta onde, na noite anterior, a vi desaparecendo na névoa. Mais alguns minutos caminhando e eu chegava numa área de formato circular, protegida por pedras que formavam uma espécie de parede de dois palmos de altura. No centro, sobre uma rocha, um belo garrafão de plástico azul com água pela metade deixado por uma boa alma. Emília esperava junto com sua mochila ali.
Fomos assim procurando manchas coloridas na rocha ou desgaste de pisadas até avistarmos uma espécie de poste mais acima. Aquilo me fez imaginar que estávamos próximos do teleférico. Ali devia ser o fim de tanto trepa-rocha e eu imaginava que encontraria um grande platô após... Mas para chegar lá tínhamos que subir por uma canaleta muito escorregadia e íngreme. Nesse ponto eu estava na frente e me equilibrava em cada curta passada, auxiliado pelos bastões, onde eu punha uma força tremenda. Da metade da canaleta em diante, várias falhas na rocha da lateral esquerda tornavam mais fácil escalá-la do que tentar subir por aquela espécie de escorrega de areia. Nesse ponto eu ia à frente e, quando finalmente alcancei o poste, tive uma desagradável surpresa. Para quem já esperava ver a estação do teleférico ou qualquer tipo de construção, pavimento, eu me encontrava no topo de uma espécie de agulha de pedra, colada a um maciço maior.
Eu achava mais provável que tivéssemos que descer pelo lado oposto de onde subimos, e talvez de lá conseguíssemos galgar outra encosta e talvez chegássemos a algum lugar. Emília chegava ao ponto onde eu me encontrava e tivemos que nos espremer para encontrar uma forma de ficarmos os dois naquele lugar comprimido entre uma parede e três despenhadeiros. Emília tentou descobrir algum caminho entre algumas fendas e blocos e sumiu por alguns instantes, somente para voltar dizendo que encontrara alguns abismos. Decidimos descer pelo lado oposto, mas como estávamos já desgastados depois de tantos dias e como eu tinha certeza que estávamos muito perto, sugeri que usássemos a corda a partir dali. Além disso, o trecho que teríamos que desescalar estava bem íngreme e cheio de areia e pedras soltas. Emília se posicionou, meio se apoiando em mim e disse que não estava se sentindo bem. Enquanto ela tinha ido procurar algum caminho, eu já colocara a cadeirinha e tinha laçado um bloco de pedra para me ancorar. Agora eu não tinha muito tempo. Ela mal me avisava que sua pressão estava baixando e já começava a fechar os olhos, abaixar a cabeça e se recostar. Pedi que passasse rapidamente uma fita unida por costura ao redor do tronco, sob os braços para que eu pudesse prendê-la a mim no caso de algum desmaio. Por sorte não foi nada grave e depois de uns minutos de descanso e alguns biscoitos salgados ela já estava melhor e vestindo a sua cadeirinha também.
Assegurei sua desescalada, liberando a sua corda lentamente e depois pedi que ela fizesse o mesmo para mim, só que recolhendo minha corda enquanto eu passava esta ao redor de bicos de pedras e os soltava mais abaixo com um movimento de ondulação. Agora precisávamos descer por uma pilha de pedras soltas e tomar a direita numa outra rampa que subia. Primeiro desceu ela e pedi que se prendesse em algum lugar para que eu fizesse o mesmo e continuasse pela nova rampa. Na minha vez, me senti como naquelas piscinas de bolinhas para crianças, só que com grandes blocos que cediam sob meus pés e rolavam ameaçadoramente em direção a um despenhadeiro. Passei por Emília, que se abrigava numa curva das pedras soltas e agora eu subia pela outra rampa que era um pouco mais íngreme.
Fiz duas proteções, laçando blocos de pedra e “costurando” minha corda para diminuir minha queda. Com esta segurança eu me sentia muito mais tranquilo, apesar desta última rampa ser mais íngreme. Encontrei um emaranhado de vergalhões do tamanho de um automóvel parecido com um grande novelo semi enterrado no cascalho e tive certeza que aquilo não sairia de jeito nenhum dali. Clipei o mosquetão de minha costura diretamente num desses vergalhões da espessura do meu dedo mínimo e passei minha corda. Aquela foi a melhor proteção que eu já fizera. Além de forte, ainda amorteceria o impacto de minha queda como uma grande mola. Encontrar aquele tipo de entulho me dizia que estavamos próximos do fim do nosso caminho. Continuei subindo até esticar a corda de setenta metros, bem no final da rampa e ao lado de um bloco de rocha, que abracei com fitas para me ancorar. Fiz a segurança de Emília dali que subiu sem maiores problemas. Ainda ancorado, enquanto enrolava a corda, perguntei o que a menina via, uma vez que esta havia passado por mim e continuado.
A informação de que o teleférico estava ali foi um presente.
- Não vamos mais precisar da corda? Não tem mais escalaminhadas?
Eram umas três da tarde e chegávamos ao Pico Espejo, onde encontrávamos a última estação do gigantesco teleférico de Mérida desativado. Grandes peças de aço, lixo, cabos de aço da grossura do meu braço jaziam abandonados e sujos de graxa na rocha nua da montanha e em plataformas de concreto. Uma grande e forte construção de dois andares lembrava um abrigo de montanha e outras menores abrigavam equipamentos e medição metereológica.
Mais afastada, uma estátua de Nossa Senhora das Neves, padroeira dos alpinistas, nos observava discretamente enquanto rodávamos pelo lugar, procurando uma mísera torneira ou qualquer outra fonte de água. Só faltava essa. Queríamos tanto chegar aqui, achando que encontraríamos água e agora nada! Numa pequena cabana, encontramos boa quantidade de comida: macarrão, molho de tomate, chocolate! Essa cabana era meio sinistra, pequena feia e meio destruida.
Nossa esperança era tentar entrar na estação do teleférico para procurar por água. As portas estavam trancadas e até me arrisquei a verificar as portas que davam para o abismo, por onde entra a galera que vem do bondinho, mas estas também estavam trancadas por dentro.
Rodeando a estação, vi uma escada podre no chão e imediatamente olhei para cima, descobrindo uma janela aberta no segundo andar. Apoiei a escada molenga e podre com alguns degraus banguelas e pedi para Emília firmá-la da melhor maneira. Comecei a escalada da escada mais tenso do que nos setenta metros da última rampa, pisando somente no ponto onde os degraus eram pregados e não no meio deles. Com os pés no topo da escada, alcancei a janela e me esgueirei com cuidado por ela até me descobrir bem em cima de um vaso sanitário lotado de Mérida! Eu descia dentro de uma das cabines do banheiro das mulheres e apoiava-me pisando cautelosamente nas bordas do vaso, prendendo a respiração.
Agora eu precisava: abrir a porta da estação para Emília entrar além de achar água! Mas das torneiras, nada escorria. Mau sinal...
Começava nesse momento a chover e eu procurava uma porta que eu conseguisse abrir por dentro. Logo já estávamos os dois lá dentro investigando tudo que pudesse nos ajudar. A estação consistia num grande salão com o interior todo em madeira com dois corredores laterais, por onde entravam e saiam os visitantes vindos dos bondinhos. Grandes janelas com vidros duplos banhavam o ambiente com luz e proporcionavam uma vista incrível de quase todas as montanhas ao redor. O Pico Bolívar estava ali, parecendo ao alcance de nossos braços. Mas eu sabia que se eu algum dia eu realmente vier a tocá-lo, não será tão cedo. No segundo andar,além do banheiro, uma cantina inacessível por causa de uma porta trancada.
Dois sistemas de cabos partiam de plataformas metálicas e quase desapareciam antes de chegar na estação Loma Redonda que ficava a três quilômetros dali. Bem no meio dos cabos, dois bondinhos pairavam imóveis sobre o vazio. Ao olhar em outra direção, um susto. Tinha um homem no topo daquele cume na chuva?
Outro pico confirmava o curioso costume dos venezuelanos de fixar estátuas no topo de suas montanhas. O Pico Bolívar tem um busto de Simon Bolívar no topo. Esta outra era a figura de um homem de corpo inteiro segurando uma espécie de bastão longo.
Dentro da estação ainda encontramos um aposento que servia de enfermaria, com várias máscaras de oxigênio enfileiradas para socorrer os turistas que chegavam a 4.500 metros de altitude desavisados. Num parapeito encontramos o livro de ocorrências médicas e nos assustamos com sua grossura. Folheando suas páginas, milhares de casos de dor de cabeça, falta de ar, tontura provenientes da altitude. Teria sido esta a razão do fracasso do teleférico megalomaníaco? Num balcão do salão, encontramos meia garrafa de água, manteiga, pão e num outro lá estava uma linda garrafa completamente cheia de gasolina! Podíamos fazer comida quente.
Fizemos a enfermaria de quarto enquanto a chuva se transformava em granizo, deixando tudo lá fora branco. Abrigávamos-nos ali por ser um cômodo menor e mais quente. Que sorte não estarmos no meio do caminho sob aquela chuva de pedras! Durante a noite fomos utilizando a água dos umidificadores das máscaras para beber e cozinhar.
De madrugada, saí para ir até a cabana buscar meio litro de água que ainda havia numa garrafa lá e tive uma bela visão das cidades iluminadas nos pés das montanhas. Lembrei da Serra Fina e as luzes de todas as cidades que costumamos ver à noite do Capim Amarelo.
O dia seguinte amanheceu lindo e ensolarado. Arrumávamos os equipamentos para terminar a travessia e regressar a Mérida. Sentia pena em abandonar a escalada do Bolívar com aquelas condições climáticas tão favoráveis. Por outro lado a aventura já havia sido boa também e ambos estavam satisfeitos de montanha depois de cinco dias nas alturas. Não precisamos nem confirmar a opção de descer.
Fechamos a estação do teleférico e deixamos tudo como encontramos. Eu procurava não pensar que se o teleférico estivesse funcionando poderíamos estar em Mérida talvez num máximo de um par de horas, nos poupando de uma penosa e longa descida.
Após algum estudo no mapa, iniciamos a descida pela direção mais provável. Logo estávamos pisando onde outros deixaram uma trilha marcada e alguns totens sinalizando ocasionalmente. Ainda enfrentamos um ou outro lance exposto, mas este lado foi mais fácil e algumas horas depois estávamos numa trilha mais plana que acompanhava a curva de um grande vale com um lago no fundo. A trilha terminou numa estrada e mais um pouco chegávamos a estação gigantesca chamada Loma Redonda. Lá encontramos um vigia que nos deu água e algumas indicações do caminho.
Mais descida e chegávamos a outra estação, onde teríamos que pegar uma bifurcação à direita, cujo caminho seria mais curto até algum tipo de vilarejo aonde poderíamos encontrar transporte. Neste ponto começou a chuviscar e protegemos as mochilas com capas e vestimos anoraks.
A partir daí, quanto mais descíamos, mais a chuva engrossava. E descemos muito. A inclinação era boa. Boa pra estourar os joelhos! A vegetação deixou de ser rasteira e a trilha começou a adquirir uma característica curiosa. No início ela parecia uma trilha erodida como qualquer outra, mas depois os sulcos foram ficando tão fundos e largos que se pareciam com cânions. Alguns com cinco ou seis metros de profundidade. Nestes caminhos, precisávamos ter cuidado, pois muitas vezes a trilha se bifurcava, ora contornando pelas bordas da s grandes valas, ora passando por dentro delas. Quando, nos demos conta, já tínhamos adentrado uma grande e densa floresta. Caminhar dentro daquela espécie de túnel escavado no solo e tapado no alto pelas árvores me remetia aos filmes do Indiana Jones e ajudava a esquecer a chuva torrencial que caía, formando rios onde caminhávamos.
Alguns sabem muito bem que existe uma lei da física que diz que a distância e o tempo aumentam proporcionalmente em relação à dor e o cansaço sentidos e foi isso que aconteceu. A longa descida íngreme com desnível de 3.000 m e o peso trazido não pouparam meus joelhos e os trechos finais se tornaram intermináveis. Afinal, começamos a andar por volta de nove da manhã e agora já escurecia. Avistar as primeiras casas trazia uma ansiedade maior ainda e terminei os últimos metros da trilha mancando e me apoiando nos bastões como um aleijado. Participando de provas longas e atividades de um dia inteiro, reparo que nos condicionamos a enganar a mente para esquecer as dores e o esgotamento, mas quando percebemos que o esforço está terminado ou prestes a acabar, parece que os sintomas físicos aparecem todos de uma vez. É mais ou menos como a vontade de ir ao banheiro que aumenta à medida que nos aproximamos de casa...
Chegamos a Mucunutan e tomamos um táxi que nos levou a Mérida sem problemas maiores do que fugir com nosso troco.
Analisando a viagem, não consegui o meu objetivo principal, que era escalar o Bolívar. Mas por outro lado, consegui vários outros que estou sempre buscando. Uma boa viagem, uma grande aventura, belas fotos, valiosa experiência, muitas estória, contato com uma cultura diferente. A travessia do Parque Nacional Sierra Nevada foi uma surpresa. Agora entendo um breve silêncio e discretos entreolhares dos guarda-parques quando anunciamos nossos planos de escalar o Humboldt, fazer a travessia e escalar o Bolívar numa tacada só:
- Bom... Vocês são montanhistas... – Alguém comentou como se lavasse as mãos. Mas estavam no mínimo impressionados pois tínhamos todo o equipamento necessário e mais um pouco. Isso já demonstra que alguma noção nós tínhamos.
É uma empreitada pesada de seis dias. O equipamento levado para escalar pesa muito nos longos trechos de aproximação e ligação de uma montanha e outra. Além do mais as duas montanhas têm características diferentes, o que obriga o montanhista a levar equipamento para neve e rocha.
O roteiro mais usado é o Pico Humboldt, por ser mais fácil. Os montanhistas iniciam em Tabay, La Mucuy, e sobem até o acampamento base, escalam e retornam pelo mesmo caminho. O segundo é a subida por Mérida ou Mucunutan para escalar o Bolívar. Este trecho bem mais íngreme. Todas as duas aproximações são feitas geralmente em dois dias.
Enquanto eu voltava para o Brasil, Emília partia para um merecido descanso de aventuras nas praias paradisíacas do Caribe em um arquipélago chamado Los Roques.
Não voltamos a escalar juntos.
No ano seguinte Emília foi a primeira brasileira a escalar uma montanha no Himalaia chamada Ama Dablam.
{jcomments on}









