Pico Humboldt

A Escalada que Virou Travessia

nuvensO dia seguinte amanheceu lindo e ensolarado. Arrumávamos os equipamentos para terminar a travessia e regressar a Mérida. Sentia pena em abandonar a escalada do Bolívar com aquelas condições climáticas tão favoráveis. Por outro lado a aventura já havia sido boa também e ambos estavam satisfeitos de montanha depois de cinco dias nas alturas. Não precisamos nem confirmar a opção de descer.

Fechamos a estação do teleférico e deixamos tudo como encontramos. Eu procurava não pensar que se o teleférico estivesse funcionando poderíamos estar em Mérida talvez num máximo de um par de horas, nos poupando de uma penosa e longa descida.

Após algum estudo no mapa, iniciamos a descida pela direção mais provável. Logo estávamos pisando onde outros deixaram uma trilha marcada e alguns totens sinalizando ocasionalmente. Ainda enfrentamos um ou outro lance exposto, mas este lado foi mais fácil e algumas horas depois estávamos numa trilha mais plana que acompanhava a curva de um grande vale com um lago no fundo. A trilha terminou numa estrada e mais um pouco chegávamos a estação gigantesca chamada Loma Redonda. Lá encontramos um vigia que nos deu água e algumas indicações do caminho.

Mais descida e chegávamos a outra estação, onde teríamos que pegar uma bifurcação à direita, cujo caminho seria mais curto até algum tipo de vilarejo aonde poderíamos encontrar transporte. Neste ponto começou a chuviscar e protegemos as mochilas com capas e vestimos anoraks.

A partir daí, quanto mais descíamos, mais a chuva engrossava. E descemos muito. A inclinação era boa. Boa pra estourar os joelhos! A vegetação deixou de ser rasteira e a trilha começou a adquirir uma característica curiosa. No início ela parecia uma trilha erodida como qualquer outra, mas depois os sulcos foram ficando tão fundos e largos que se pareciam com cânions. Alguns com cinco ou seis metros de profundidade. Nestes caminhos, precisávamos ter cuidado, pois muitas vezes a trilha se bifurcava, ora contornando pelas bordas da s grandes valas, ora passando por dentro delas. Quando, nos demos conta, já tínhamos adentrado uma grande e densa floresta. Caminhar dentro daquela espécie de túnel escavado no solo e tapado no alto pelas árvores me remetia aos filmes do Indiana Jones e ajudava a esquecer a chuva torrencial que caía, formando rios onde caminhávamos.

Alguns sabem muito bem que existe uma lei da física que diz que a distância e o tempo aumentam proporcionalmente em relação à dor e o cansaço sentidos e foi isso que aconteceu. A longa descida íngreme com desnível de 3.000 m e o peso trazido não pouparam meus joelhos e os trechos finais se tornaram intermináveis. Afinal, começamos a andar por volta de nove da manhã e agora já escurecia. Avistar as primeiras casas trazia uma ansiedade maior ainda e terminei os últimos metros da trilha mancando e me apoiando nos bastões como um aleijado. Participando de provas longas e atividades de um dia inteiro, reparo que nos condicionamos a enganar a mente para esquecer as dores e o esgotamento, mas quando percebemos que o esforço está terminado ou prestes a acabar, parece que os sintomas físicos aparecem todos de uma vez. É mais ou menos como a vontade de ir ao banheiro que aumenta à medida que nos aproximamos de casa…

Chegamos a Mucunutan e tomamos um táxi que nos levou a Mérida sem problemas maiores do que fugir com nosso troco.

Analisando a viagem, não consegui o meu objetivo principal, que era escalar o Bolívar. Mas por outro lado, consegui vários outros que estou sempre buscando. Uma boa viagem, uma grande aventura, belas fotos, valiosa experiência, muitas estória, contato com uma cultura diferente. A travessia do Parque Nacional Sierra Nevada foi uma surpresa. Agora entendo um breve silêncio e discretos entreolhares dos guarda-parques quando anunciamos nossos planos de escalar o Humboldt, fazer a travessia e escalar o Bolívar numa tacada só:

– Bom… Vocês são montanhistas… – Alguém comentou como se lavasse as mãos. Mas estavam no mínimo impressionados pois tínhamos todo o equipamento necessário e mais um pouco. Isso já demonstra que alguma noção nós tínhamos.

É uma empreitada pesada de seis dias. O equipamento levado para escalar pesa muito nos longos trechos de aproximação e ligação de uma montanha e outra. Além do mais as duas montanhas têm características diferentes, o que obriga o montanhista a levar equipamento para neve e rocha.

O roteiro mais usado é o Pico Humboldt, por ser mais fácil. Os montanhistas iniciam em Tabay, La Mucuy, e sobem até o acampamento base, escalam e retornam pelo mesmo caminho. O segundo é a subida por Mérida ou Mucunutan para escalar o Bolívar. Este trecho bem mais íngreme. Todas as duas aproximações são feitas geralmente em dois dias.

Enquanto eu voltava para o Brasil, Emília partia para um merecido descanso de aventuras nas praias paradisíacas do Caribe em um arquipélago chamado Los Roques.

No ano seguinte Emília foi a primeira brasileira a escalar uma montanha no Himalaia chamada Ama Dablam.

 

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