A Travessia Petró-Tere que terminou no Açú

Acordei com o dia claro e o Alessandro em pé na minha frente reclamando que eu não tinha feito a comida deles, olhei para o fogareiro e o gás havia acabado e a água na panela estava fria. Perguntei as horas e eram sete da manhã. Alguns minutos depois chegaram Thatianna e para minha surpresa, Rodrigo, cujo apelido é Mestre, e Daniela também. Daniela xingava muito e dizia a todo momento que iria voltar dali. Thatianna se desculpava por estar dando trabalho, mas não víamos um jeito de deixar elas voltarem sozinhas, tentei convencê-las a ir pelo menos até o Açú, pois poderiam de repente acompanhar algum outro grupo descendo.

Luizão já tinha dado a ideia na semana passada de fazer a Travessia Petrópolis-Teresópolis no fim de semana e eu achei muito em cima, mas quando a Martinha ligou dizendo que o Douglas estava marcando de levar os alunos na semana seguinte eu topei. Mas o único que me acompanhou acabou sendo o Alessandro. Saímos na sexta à noite e eu nunca arrumei a mochila tão rápido, em vinte minutos fiz o que eu levo geralmente uma hora. Resultado: esqueci diversas coisas menos importantes. Encontramos o pessoal na Rodoviária e me assustei quando fizemos a contagem. Éramos vinte pessoas! Me preocupei, mas da última vez conseguimos guiar um grupo de quinze, que mostrou muita disposição. O problema é que desta vez teríamos que fazer o percurso em um fim de semana! No caminho para a Rodoviária liguei para o Luizão para pedir o rádio dele, pois eu estava com o meu. Luizão foi até a rodoviária levar o rádio e chegou em cima da hora do ônibus partir. Sorte, pois o rádio foi muito importante.

Fomos até Petrópolis de ônibus e de lá pegamos mais dois até Bonfim,  um bairro de Correias, de onde faríamos uma pequena caminhada até a entrada do Parque Nacional da Serra dos Órgãos. Eu e Alessandro já nos colocamos em posição , cada um com um rádio e eu indo na frente e o Alessandro, como de costume, no apoio, sendo o último. Esse procedimento serve para manter o grupo sempre unido e sempre em comunicação.

Já  antes de chegar na entrada do parque, nos primeiros 15 minutos, algumas pessoas começaram a ficar para trás e caminhavam num ritmo mais devagar. Thatianna, uma aluna de Douglas, era quem sentia maior dificuldade e Alessandro a acompanhou praticamente o tempo todo. Pelo que conversamos, ela não sabia do nível de dificuldade daquela travessia. Aliás, muita gente imaginou que seria diferente. Barbara, uma amiga de uma aluna do Douglas, achava que ficaríamos somente acampados e só descobriu que iria fazer a travessia na entrada do parque!

Depois da revista nas mochilas e de registar a entrada do grupo pegamos a trilha rumo ao nosso destino naquele dia, o Ajax, um monte com um lugar bem amplo para se acampar e com água em abundância bem próximo. Passou pela minha cabeça tentar chegar até o Açú ainda naquele dia, mas começamos a trilha por volta de meia noite e meia e depois de uma hora fazíamos nossa primeira parada para descansarmos e esperarmos Alessandro e Marco Aurélio que traziam cada um duas mochilas – a deles e a de mais alguém. Pelo rádio, Alessandro disse que depois de pararem para ajeitar as mochilas, se descuidaram e pegaram um caminho errado e agora eu e mais um descíamos para ir ao encontro dos dois que ficaram para trás. Ajudamos a trazer as mochilas e voltamos ao lugar onde o resto estava esperando. Surdiu uma idéia de ficarmos ali mesmo naquela noite, mas descartamos, pois seria muito difícil alojar todo mundo ali naquele pedaço de trilha e não tinha água por perto. Além do mais, teríamos que andar muito durante o dia seguinte.

Continuamos e muito tempo depois, fizemos uma nova parada no Queijo. Ali, ainda pensei em esperar pelo pessoal que estava bem mais atrás, mas como alguns já se adiantavam em seguir, achei melhor continuar. A maioria já estava sem paciência pelo desgaste físico e me perguntava a todo momento se estava próximo. Quarenta minutos depois de partir do Queijo, eu e mais um pouco mais da metade do grupo chegávamos até o Ajax. Eu continuava a manter contato com o Alessandro, que só agora começava a descer o Queijo. Essa distância que tínhamos tomado me preocupava. Enquanto todos foram dormir algumas poucas horas, eu aproveitava para fazer uma refeição mais reforçada. Eu havia saído do trabalho às oito da noite e cheguei na rodoviária as nove com o ônibus partindo nove e vinte, não tinha dado nem para fazer um lanche. Devia ser umas cinco e meia e o céu começava a clarear. Coloquei a água para ferver e deitei sobre uma pedra, o clima estava muito longe do normal daquela região e consegui dormir daquele jeito mesmo, mas acordei com o barulho da panela com a água já fervendo. Comi macarrão, feijão a vácuo, banana e chocolate. Meia hora depois vi umas três luzes de lanterna vindo pela trilha e estranhei, pois pensei que fosse Alessandro, mas não vi a luz branca da lanterna de cabeça dele e imaginava que ele estava sozinho com a Thatianna. Para minha surpresa, chegaram Erik, Bárbara e Michele. Erik estava meio revoltado e perguntava por onde eu chegara. Respondi que pelo mesmo caminho que eles. é que eles caminharam um bom tempo no meio do grupo, distantes dos primeiros e dos últimos e ficaram um pouco abalados, achando que pudessem estar perdidos. Enquanto isso, eu acompanhava o que se passava com Alessandro e Thatianna. Alessandro sempre tentando incentivar dizia sempre que faltava somente quinze minutinhos e me pediu para preparar a comida para eles. Fui até a água para encher a panela e quando me abaixei próximo ao laguinho formado pela fonte, o rádio, que estava no bolso do anorak, mergulhou na água. Ainda olhei para ele lá no fundo e vi que continuava aceso, com o painel iluminado marcando o canal 12, então me toquei e enfiei a mão rapidamente na água congelante, molhando a manga do anorak. Liguei e desliguei-o para testar e aparentemente ele não havia pifado, o que me surpreendeu, mas achei melhor deixá-lo desligado. Coloquei a água para ferver e deitei na pedra, mas desta vez, sobre o isolante, pois a temperatura havia caído um pouco.

Acordei com o dia claro e o Alessandro em pé na minha frente reclamando que eu não tinha feito a comida deles, olhei para o fogareiro e o gás havia acabado e a água na panela estava fria. Perguntei as horas e eram sete da manhã. Alguns minutos depois chegaram Thatianna e para minha surpresa, Rodrigo, cujo apelido é Mestre, e Daniela também. Daniela xingava muito e dizia a todo momento que iria voltar dali. Thatianna se desculpava por estar dando trabalho, mas não víamos um jeito de deixar elas voltarem sozinhas, tentei convencê-las a ir pelo menos até o Açú, pois poderiam de repente acompanhar algum outro grupo descendo.

Enquanto o pessoal recém chegado descansava um pouco, a galera lá de cima começava a acordar. Fui até lá para ver que horas deveriam começar a partir e tirei algumas fotos com Martinha, Marcus Vinícius e seu primo. Ainda vi algumas barracas montadas e deviam demorar um pouco até se prepararem.

    Por volta de nove horas a turma de cima estava partindo, mas nós aqui em baixo ainda comíamos e acordávamos. Depois do descanso, as duas meninas pareciam mais acostumadas com a idéia de continuar a subir e começamos a nos preparar a medida que víamos o outro grupo subindo pelo morro a nossa frente. Depois que eles sumiram atrás do morro, vimos três pessoas subindo bem mais atrás… eram Erik, Bárbara e Michele. Pararam e no meio e ficaram gritando, perguntando onde era o caminho. Tentamos falar para eles esperarem ali, pois passaríamos por lá, mas eles desceram até nós, com medo talvez de que voltássemos.

Depois de tudo pronto, começamos novamente a subida, chegava ao Ajax um outro grupo. Um deles, olhando a calça de Alessandro, reconheceu o nome Trilha & Cia. da nossa equipe na Rio Trekking – competição de Enduro a Pé que participamos. Era um pessoal da equipe chamada Engetrilhas. Não devemos ter subido nem vinte minutos, percebi que não daria para continuar daquele jeito. Mestre já trazia a barraca das garotas e eu pedi, então, a mochila de Thatianna, que coloquei virada para frente, no meu peito, e coloquei a mochila de Dani atrás da nuca, apoiada na minha própria mochila. Enquanto isso o pessoal da Engetrilhas nos passava. Continuamos a subir. Tati e Dani, mais leves puderam subir melhor, mas mesmo assim ainda ficaram para trás. Ultrapassei novamente o pessoal do Engetrilhas e ao chegar no início do primeiro platô, parei para descansar. Mas uma coisa somente atrapalhava: a mochila da frente me impedia de ver o chão, me fazendo tropeçar bastante. Resolvi amarrar então as duas mochilas das meninas na minha mochila para que eu pudesse levar tudo nas costas. Pareceu que o peso tinha duplicado! Sem contar que me fazia desequilibrar, quando eu me virava. Mas fui assim mesmo e consegui chegar na cruz do Açú, no final das forças, com as pernas começando a queimar. Bárbara me acompanhou na última metade deste trecho, que ao todo fizemos em três horas!

Paramos para comer na fonte de água que há próximo aos Castelos do Açú e descobrimos que Erik era uma despensa ambulante de enlatados! Havia lata de almôndegas, fiambre, milho, salsicha e várias latas de sardinha. Isso fazia sua mochila muito pesada. Erik se defendeu, dizendo que o Douglas o havia aconselhado a levar só enlatados. Melhor para todos nós, pois comemos o tempo todo e muito.

Enquanto eu estava na cruz, eu havia perguntado a dois caras que ali estavam se iriam descer para Petrópolis ou se iriam para Teresópolis para acompanhar quem do nosso grupo quisesse voltar. Eles responderam que desceriam o Açú até Petrópolis e se precisássemos, eles ajudariam sim. Já tínhamos comido e decidíamos agora o que fazer. Tentaríamos a Travessia? Deixaríamos as meninas? O pessoal que nos ajudaria passou pela gente e perguntou se alguém iria com eles, mas as meninas acharam melhor ficar, talvez por não conhecerem as pessoas que as acompanhariam. Eram três da tarde, não conseguiríamos completar a travessia e se completássemos, poderia ser um sacrifício muito grande para alguns. Alguns pingos de chuva me fizeram lembrar da previsão do tempo, que era chuva no domingo. O que seria uma aventura e tanto para eu e Alessandro, pros outros talvez pudesse ser um trauma. Achamos melhor pernoitarmos no Açú e descermos por Petrópolis no dia seguinte.

Procuramos um lugar para montarmos nosso acampamento e decidimos ficar em baixo dos Castelos do Açú, o que nos protegeria um pouco da chuva, se ela caísse… Montamos as quatro barracas e para passar o tempo, brincamos de mímica, adedanha, cantamos e conversamos. O pessoal estava muito cansado, sem dormir quase nada e logo já estávamos no aninhando. Eu e Alessandro preferimos ficar do lado de fora mesmo, usando somente o saco de dormir, eu já estava totalmente embalado, quando alguém percebeu a lua. Isso me fez lembrar da vista do rio a noite e dei a idéia de subirmos a pedra ao lado que tem um cabo de aço. Fomos lá e ficamos um bom tempo olhando o céu que estava meio nublado, mas de vez em quando nos deixava ver a lua cheia e as estrelas. O vento começou a ficar forte e descemos.

alessandronoacuNo meio da noite, caiu uma chuva muito forte e eu já tinha me abrigado e o Alessandro perdeu o sono e ficou acordado. Só me lembro de escutar de dentro da barraca o barulho de uma cachoeira! Por volta de duas e meia, Alessandro viu a barraca de Erik e a de Dani e Tati boiando ilhadas num lago formado pela chuva e acordou o pessoal para mudarem de lugar. Acordei com um torcicolo leve. Caia uma garoa fina a manhã inteira e agora tínhamos mais uma preocupação. Iríamos descer na chuva? Alguns grupos já começavam a partir, pois aquele tempo parecia que não melhoraria. Nossa única saída foi começar a arrumar nossas abrigocoisas assim mesmo. Procuramos comer a comida quase toda para não levar peso nem precisar parar para comer. E como demoramos muito para arrumar tudo e ainda tirar várias fotos, o tempo acabou melhorando e parou de chover. Partimos meio-dia.

Durante a primeira hora de caminhada, fomos em um ritmo bom, nas aos poucos a descida começava a castigar. Eu contava os passos e calculava a distância e Alessandro marcava o tempo para podermos calcular a hora em que chegaríamos, mas o ritmo caia cada vez mais. Michele, que na subida fez bolhas nos calcanhares, agora sentia dores nos dedos do pé, pois seu calçado os comprimia na descida. Barbara também sentia dores nos pés, além dos ombros que estavam machucadas por causa da mochila.

Cheguei a ficar em dúvida em alguns pontos da descida até o Ajax, pois o tempo estava muito fechado e não havia referências visuais. No início, não há uma trilha definida e você caminha por cima de um platô de pedra. Fizemos uma parada no Ajax e aproveitei para tomar um banho mais ou menos. Me lembrei que Luizão havia oferecido de nos apanhar em Teresópolis e talvez ele pudesse nos pegar lá em Bonfim. Ligamos para ele e combinamos de que Rafael também vira com o meu carro para que coubesse todo mundo. Enquanto isso, Michele usava o tenis de Alessandro, que por ser maior, não machucava seus dedos.

Escureceu e paramos para pegar as lanternas. Procurei a minha e não a achei, tive que seguir pela luz das outras lanternas. Dias depois, Alessandro, que tem uma igual, a achou em sua mochila. Barbara também reclamava de dor nos dedos do pé. Tirei meu boot para que ela o usasse, ao invés de seu tênis, mas ela não quis. Depois de uma discussão, levou a bota na mão mas, não calçou e eu continuei de chinelo. Thatianna sofria muito com a descida e resolvemos deixar o grupo ir na frente e eu acompanharia a Tati, para não sacrificar o resto, já que descer muito devagar força bastante os joelhos e os pés. Michele também ficou para trás ajudando a iluminar o nosso caminho. Parávamos a todo momento e uma dessas paradas foi em um rio, onde aconselhei Thatianna a entrar até a cintura na água gelada, pois lembrava dos efeitos quase mágicos na Estrada Real. Thatianna mergulhou somente os pés com tenis e tudo, não era exatamente isso que eu imaginei, mas já era alguma coisa. Conversamos um pouco, pois ela se sentia culpada por estar atrasando todo o grupo. Achava que tinha obrigação de ter um condicionamento parecido com o da galera. Dizia que admirava esse tipo de atividade, mas que ela não tinha jeito para isso e que nunca mais faria algo parecido. Tentei explicar que era uma questão de se preparar e se acostumar e que a maioria das pessoas teria as mesmas dificuldades que ela. A questão principal era o fato de que ela não sabia da dificuldade que enfrentaria. Em outra parada, Alessandro, passou um rádio – que agora funcionava depois de seco e com pilhas novas – dizendo que achava que estava perdido. Deixei as meninas lá em cima com as mochilas e desci ao encontro da galera de baixo, alessandro fazia o caminho votando e nos encontramos, depois de confirmado que não haviam se perdido, eles continuaram e eu voltei, pois as garotas estavam gritando que ouviram barulho de cobra. Continuamos a andar e eu sentia dores no pescoço. Que azar, ter um torcicolo, justo quando se precisa carregar uma mochila pesada comprimindo o seu trapézio por horas! Quando finalmente chegamos a entrada do parque encontramos Rafael e Luizão para nos receber. Tínhamos demorado nove horas para descer o Açú e ficamos todos gratos com Rafa e Luizão por estarem lá. Fomos procurar algo para comer e achamos lá em Correias um lugar onde pudemos comer uns caldos de siri e de ervilha. Depois que esfriei, senti alguns espasmos musculares e as maiores dores no pescoço de toda a minha vida, por sorte passou logo.

E como sempre, terminamos rindo das aventuras e dificuldades que passamos.curtindo

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