Aconcagua Sin Mulas

Topo

Em Nido de Condores, enquanto comíamos as refeições liofilizadas que Lucas se desfazia, Wally me contava que Cláudio decidira voltar para casa. Fiquei um pouco chocado, mas não muito surpreso. Aquela nossa tentativa podia ter sido mesmo bem frustrante para ele. Talvez estivesse com saudades da família, cansado daquele ambiente agressivo. Fiquei triste, pois Cláudio me parecia ótima pessoa, de personalidade agradável. Além do mais, ele tinha condicionamento para conseguir, era o que estava melhor dos três, talvez. Eu não tinha muita intimidade para convencê-lo a ficar, mas tentei argumentar que depois desta nossa primeira tentativa, nosso corpo estaria muito melhor aclimatado, quando partíssemos de Berlim, que era mais acima e mais perto. Ao subirmos para altitudes elevadas, forçamos nosso corpo a se preparar para a falta de oxigênio, produzindo mais glóbulos vermelhos, tornando mais eficaz o transporte do pouco oxiênio disponível. Isto pode provocar os efeitos de dor de cabeça e mal-estar sentidos principalmente à noite, caso não se tenha ingerido a quantidade suficiente de líquidos. Descendo para passar a noite em acampamentos inferiores, evitamos estes sintomas, e não interrompemos o processo de aclimatação, iniciado quando mais altos.

E realmente, já não sentia mais nada de errado comigo ao voltar para Nido.

No dia seguinte, acordei com um tempo espetacular, quase nenhum vento, um céu azul e um sol queimando. Me lembrava o clima do Rio de Janeiro e coloquei o termômetro no sol para medir. Trinta graus centígrados! Até arrisquei a tirar a roupa para pegar um pouco de sol, mas de vez em quando batia um vento que gelava imediatamente.

Nos despedimos de Lucas, que partia carregado. Ele usara porteadores para trazer parte de seu equipamento para os acampamentos superiores, mas agora descia com toda a sua carga para economizar algumas dezenas de dólares.

Enquanto nos arrumávamos, passou por nós, descendo,  um casal de argentinos que Wally e Cláudio conheceram no Refúgio e que encontramos na base da canaleta. Estes dois também abortaram a tentativa de cume naquele dia por chegarem tarde. Agora, depois de uma rápida conversa, se despediam. Iam passar o réveillon no Hotel Refúgio, descansar para voltar a subir a montanha e tentar novamente!

Nos despedimos de Cláudio também, e tentamos marcar de nos encontrarmos em Mendoza. Ele desceu e nós subimos. Um pouco mais carregados, pois eu e Wally levávamos equipamento para acampar em Berlim. Combinamos de dividir a barraca, assim poderíamos deixar a minha armada com as coisas que provavelmente não utilizaríamos. Larguei dois livros que pesavam quase um quilo.

Pareceu demorar mais do que da primeira vez, mas chegamos no terceiro e último acampamento convencional. Procuramos um espaço mais plano possível para armar a barraca e tratamos de derreter neve para fazer água. Algum tempo depois, eu estava dentro da barraca quando Wally me chamou para avisar que Sebastian e Caro estavam ali. Preparei a câmera e saí para encontrar os dois voltando radiantes do cume. Caro parecia que ia explodir de felicidade, comentava sobre o quão lindo era o visual e mostrava fotos da cruz metálica, ornamentada com todo tipo de lembrancinhas, fitas, pulseiras…  Brinquei que se eu não conseguisse chegar, iria usar aquela foto para fazer uma montagem. Seba comentava sobre um grande número de pessoas no topo. Mais de vinte. Colhemos dicas importantes sobre a canaleta. Segundo Sebastian, o melhor era galgar a enxurrada de pedras pela direita. Depois de confirmar com ele, decidimos não levar equipamento técnico para gelo, já que as rochas pareciam secas.

No dia seguinte, acordamos umas 4 horas para começar nossa tarefa de derreter neve para fazer água para beber e levar. Bebi até quase explodir. Passamos em frente à barraca de nossos colegas argentinos, que ainda dormiam, por volta de seis da manhã. Finalmente conseguíamos sair no horário planejado! Conseguia comparar meu rendimento com a primeira vez e eu parecia uma outra pessoa. Era curioso ver um grupo grande à nossa frente caminhando muito próximos e lentamente, com passos coreografados, como num balé de bichos preguiças. E assim eu avançava também, mas agora, bem mais consciente e com os batimentos cardíacos estabilizados num nível tolerável. Os crampons e piolet que eu deixara na barraca deixavam a mochila muito leve e, sem o grosso casaco também, agora ela não deveria passar de 5 quilos.

Mas a vantagem do pouco peso pode se tornar desvantagem em outras condições. Ao aproximar da Canaleta, avistamos lá de baixo, um grupo cruzando da direita para a esquerda aquela faixa de blocos de pedras. Seguiam pelo meio, diferente do que aconselhara Sebastian. Estaria o caminho, coberto de gelo? Nevara durante a noite no cume? Logo agora que deixamos nosso equipamento no acampamento! Aquelas incertezas nos corroíam, afinal, um detalhe em nossa estratégia poderia nos trazer mais uma frustração ou tornar nossa aventura mais perigosa. Nada assusta mais do que o desconhecido e, apesar de Wally estar ali pela quarta vez, o trecho final para o cume era novidade também para ele.

Este meu novo parceiro na montanha já havia comentado sobre a última vez em que estivera no Aconcágua. Acompanhava uma equipe de filmagem numa expedição que tinha como objetivo levar um deficiente visual ao topo. Mas foi obrigado a abandonar sua escalada quando precisou ajudar no resgate de um outro montanhista que despencara da Canaleta ao escorregar no gelo sem crampons.

Ficamos mais aliviados quando vimos um outro grande grupo subindo pelo canto direito, tal qual imaginávamos. Mas só tivemos certeza de acertar em nossa escolha quando, na base da Canaleta, avistamos vários conjuntos de crampons e piolets deixados pelos que subiram.

Nem paramos muito ali, para descansar, para não perder o embalo, logo já estávamos alongando nossos passos para escalar as pedras caídas.

Na metade da canaleta, os efeitos da altitude se abateram sobre mim novamente de uma forma diferente. Sentia agora uma vertigem, somente aquele cansaço e aquela vertigem. Comecei a me concentrar, me equilibrando em cada passada, auxiliado pelos meus bastões.

Wally foi se distanciando e eu cada vez mais concentrado para não me desequilibrar. Cada passo era uma tortura. Comecei a ficar preocupado com não rolar barranco abaixo. Depois de umas duas horas, já estava no topo da Canaleta, mas me afligia não ver nem sinal do cume.  Pra cima só o céu azul e nada da cruz ou de pessoas no topo. Eu havia chegado no colo entre os dois cumes  e precisava caminhar para meu lado esquerdo para alcançar o cume principal, o Norte. Era muito estranho,  algumas pesoas a minha frente continuavam subindo e parecia que sumiam no céu. Um grupo pequeno passou por mim descendo e uma menina me animou, dizendo algumas palavras em inglês:

– Congratulations! You are too near, too near!.

Me arrepiei e me emocionei, mas ansiosamente eu esperava a qualquer momento algum sinal que me indicasse o quão próximo eu estava e não encontrava. Agora, ao olhar para trás, tinha a maravilhosa visão do cume sul! Eu estava no mesmo nível e conseguia avistar o final da parede sul também naquele visual que parecia o que eu já tinha visto em fotos do cume.

Mas sentia meu combustível indo embora e me preocupava se realmente eu chegaria, mesmo estando tão perto! Cada passo era seguido de um breve planejamento e um inspiração ofegante. Havia gelo no caminho e escorregar ali era o que eu menos precisava. Sentia que aquele seria um momento importante e daria boas cenas no filme, mas cada passo, cada minuto ali se tornava importante para eu terminar. Eu praticamente escolhi entre filmar e chegar. Wally, que eu não via mais ha algum tempo, me encontrou quando vinha descendo. E entendi que estava perto mesmo quando ele se propôs a voltar e me acompanhar até o topo.

Sobre mim ainda somente o céu.Cadê a cruz?
Mais uma rocha. Continuei galgando lentamente com o auxílio da mãos Uma outra pedra vinha depois. Preferi não olhar pro meu lado esquerdo. Apenas senti o vazio e me lembrei de relatos de acidentes fatais ocorridos nesse lance.

Eu, que já esperava um estreito cume, no topo de uma rocha, finalmente, como que por mágica, vi de repente um imenso platô com a pequena cruz, que reconheci das fotos. Eu havia chegado. Estava lá. Imaginara por tantas vezes este momento. O que eu faria quando lá estivesse. Iria tirar foto com a bandeira do Brasil, com camisa do Trilha & Cia, fazendo pose, careta, sem roupa. Mas naquela hora, só queria sentar e descansar.

A visão do pedacinho da parede sul era espetacular. minha vontade era ficar lá algumas horas, mas umas nuvens começaram a bater na montanha por baixo e subir como ondas pelo lado sul. Eram 15 horas e Wally me apressava para descer.

– Junior. Só fizemos a metade, falta a descida!

Realmente, se o tempo fechasse estaríamos em apuros. Meu casaco de pluma faria falta. Tirei algumas fotos e filmei alguns depoimentos. Me emocionei quando lembrei o quanto foi difícil estar ali. Wally conseguiu entrar em contato com o pessoal do Hotel Refúgio em Plaza de mulas pelo rádio e avisou que conseguimos chegar no cume.

Devemos ter ficado somente 15 minutos no topo da montanha. Era como se ela tivesse passado todos aqueles dias impedindo nos de subir e agora que conseguíamos, precisávamos fugir correndo de sua fúria. Confesso que fiquei quase que decepcionado, revendo tudo que planejei, o tempo que perdi pesquisando, o dinheiro que gastei, o sofrimento que passei, avaliando se valia a pena tudo aquilo pelos quize minutos no topo. Em quase vinte anos de montanhismo, nunca me questionara desta forma. Descia um pouco indiferente à minha conquista. Me sentia um pouco melhor, mas só percebi o quanto ainda estava grogue quando desci a canaleta quase toda pela parte central achando que descia por outro caminho. O pior é que lá no topo, mandei Wally para o lado de um precipício, achando que o mandava para o caminho correto.

Cume
Cume

Bandeira

Queria acabar logo com aquele desgaste e procurei me apressar na descida, tomando uma distância de Wally. Acabei chegando no acampamento chamado Cólera e tive que achar o caminho para Berlim, um pouco mais abaixo.

As pessoas têm usado este acampamento em alternativa a Berlim por ser mais limpo e menos movimentado. Quase uma dezena de barracas amarelinhas e padronizadas estavam armadas ali

A vertigem sumira como que por encanto e eu descia correndo e esquiando pela trilha. Minhas pernas estavam um bagaço mas fiz esse esforço pela vontade que eu tinha de relaxar, descansar, comer, beber água e dormir.

Era 31 de dezembro de 2006, depois de comer, algum tempo depois, desmaiei e não ouvi fogos nenhum na virada do ano. Nem deu para cumprimentar Wally que provavelmente estava desmaiado também.

Abri um olho de madrugada e, ainda dormindo, percebi que havia uma ventania infernal e Wally falava algo sobre a barraca não aguentar.

No dia seguinte, acordamos com um novo dia maravilhoso. Mas não restava mais nenhum acampamento lá e nossa barraca era a última. Rimos de nossa pretensão inicial de chegar aa Plaza de Mulas a tempo de festejar o réveillon!

Levantamos acampamento, arrumamos nossas mochilas e descemos rumo a Nido, para pegar o resto de nossas coisas. Em Nido, tínhamos que levar não só nosso equipamento, mas também as fezes para apresentar aos guarda-parques no acampamento base. Saí em busca do meu filho único que deixei numa rocha distante. Depois de muito andar, descobri-o seco e o guardei no saco plástico numerado que eu recebera em Plaza de Mulas. O problema foi que algumas dezenas de metros depois, encontrei a pedra onde eu realmente fizera minhas necessidades e reconheci meu real resíduo esperando por mim lá. Entendi que catara as fezes de outro. Recolhi o meu também e fui embora sabendo que alguém iria ficar sem e talvez tivesse que devolver o saco vazio…

No caminho entre Nido e o acampamento base, me surpreendi com a quantidade de barracas. Lá de cima eu podia ver que o acampamento havia duplicado de tamanho. De onde eu estava, ouvia alguma música, e parecia que estava havendo uma festa lá. Eu realmente achei que fosse alguma banda ou música ao vivo.

Ao chegar no base, me dirigi logo ao Check-out dos guarda-parques para me livrar logo do saco das fezes. Chegava do jeito que vinha da montanha, com botas duplas, gogles, mitones e encontrei uma fila de montanhistas esperando para o check-in. Me olhavam com admiração e me coloquei no lugar deles, nos meus primeiros dias no acampamento base, quando apreensivo, via o pessoal descendo equipado da montanha. Um argentino que parecia guia de algum grupo me perguntou em inglês:

– Summit? (cume)

Com minha resposta afirmativa, soltou um “Yes”, fazendo um gesto com a mão fechada. Pareceu vibrar mais do que eu.

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