Lençóis Maranhenses

Como não pular carnaval no Nordeste

Planeta Duna

No segundo dia, tive que parar no alto de uma das várias dunas que terminavam numa piscina de água morna pra brincar de dar cambalhotas e esquibundas. Neste dia não encontrei nenhuma pessoa o dia inteiro.
Às vezes avistava algo de longe e depois descobria que eram cabras. Deve ter mais de 500 cabras espalhadas pelas dunas no parque inteiro. Andam em grupos e na mais sutil aproximação, batem em retirada.

DSC00710bEu seguia para 338 graus, estariam os guias certos quando apontaram um pedacinho de verde lá da distante duna da Lagoa Bonita? Quando eu conseguia avistar aquela pequenina mancha de vegetação, seguia em direção a ela, quando não me orientava pela bússola. O deserto é traiçoeiro mesmo, num momento em que atravessava uma lagoa, caminhava distraído olhando para meus pés submersos na água quente e cristalina. Ao chegar à margem da lagoa resolvi olhar para a bússola para me certificar do mais curto caminho que eu precisaria fazer e em que ponto eu deveria alcançar o topo da próxima duna, quando tomei um susto. O norte da bússola apontava para trás. Impossível, eu entrei na lagoa vindo de lá, como eu teria que voltar? Estaria a bússola com algum problema, teria aquela lagoa alguma influencia magnética, sacudi a bússola e nada. Teria o calor estourado o liquido interno como aconteceu com a bússola marítima do meu carro? Sem bússola ali eu estaria bem lascado… Devia ter trazido uma reserva!
Sem o auxílio do precioso instrumento, me orientando pelo sol, pode contar que eu vagaria pelas dunas por muito tempo até achar algum lugar. Tinha comida pra cinco dias e estava tentando fazer em três, depois do tempo que fiquei parado por causa da chuva, abandonei a ideia de tentar em dois. Mas e agora? Levei em consideração que era mais provável o doido ser eu do que a bússola e segui cegamente para o norte apontado por ela. Subindo a duna, a paisagem e o horizonte se transformavam e agora eu já não tinha mais certeza de onde eu tinha realmente vindo. Melhor assim, a bússola poderia estar certa mesmo.

Estava. No final do dia, comecei a me aproximar de uma longa faixa de vegetação que imaginei ser a tal Baixa Grande, que na revista eram as margens do Rio Negro, mas nos prospectos era apenas uma área redonda. Pensei: “Atravesso o rio e continuo a andar para acampar no alto de alguma duna de novo”. Eu havia visto uma foto na revista onde os caminhantes atravessavam o rio com água pelo peito, carregando suas mochilas na cabeça.

Comecei a me embrenhar na vegetação de restinga e descobri que não havia um caminho. Comecei a caminhar de forma sinuosa contornando as ilhas de densa vegetação, caminhando pelos canais pantanosos, procurando o caminho que me levasse mais rapidamente ao rio. Quando subi um pequeno morrinho pra tentar avistar a melhor opção para mim, me dei conta que eu estava no meio de um labirinto pantanoso. Aquela pequena faixa de verde, vista de dentro era uma imensa área de manguezais até quase o horizonte. Eu levaria horas para atravessar aquela área daquela forma, indo e voltando, caminhando com água no pescoço às vezes ou rasgando mato quando me via sem saída.

DSC00719bSoubera que havia moradores nômades naquela região, mas não conseguia avistar nenhum tipo de casa, as trilhas que eu achava somente tinham pegadas de animais, mas de vez em quando eu chegava numas espécies de ilhas onde vários cajueiros pareciam ter sido plantados ordenadamente. Não era época de caju infelizmente. Mas achei uma fruta que se assemelhava com uma tangerina em miniatura, do tamanho de uma bola de gude grande. Em quase todo arbusto de mato brotava essa frutinha. Resolvi experimentar e dei uma dentada em uma tentando provar o sabor com a ponta da língua. Parecia doce. Tinha um gosto que lembrava o caqui e a manga. Comi, a maior parte da pouca carne ficava presa a uns quatro caroços e os engoli. Comi vária dessas frutas e amenizei minha fome naquele dia em que eu não almoçara.

Alguns coqueiros ou palmeiras altos se destacavam daquele mar de vegetação baixa e imaginei que ali talvez pudesse ter uma casa, tentava seguir mais ou menos naquela direção.

Já tinha anoitecido quando finalmente encontrei o que parecia ser o Rio Negro. Comecei a cruzá-lo caminhando e vendo o nível da água subir à medida que eu me dirigia ao meio dele. Fui subindo a mochila nas costas, segurando pelas alças com os braços esticados acima da cabeça, quando num passo, não senti mais o chão e a mochila flutuando me forçava pra cima. Aquele não devia ser um bom lugar pra atravessar e eu precisava tomar cuidado com a câmera e a filmadora que não estavam no saco estanque. Esta última, desde a última chuva, filmava as imagens todas esverdeadas sem o azul. Retornei e margeei algumas ilhas procurando alguma parte mais larga do rio onde pudesse ser menos fundo, mas mesmo em algumas margens a água já batia no meu pescoço. Em certo momento eu estava com a mochila no alto da cabeça, apoiando-a com as mãos levantadas e com água pela boca.

Caminhava pra um lado e outro lentamente dentro d’água com os pés descalços, torcendo para não pisar em nenhuma cobra, caranguejo, jacaré, raiz. A única vantagem daquela situação é que para beber água bastava abrir a boca…

Já era noite, eu observava somente por uma fresta entre a mochila e suas alças caídas sobre minha cabeça e a água, não havia um lugar que eu já não tivesse andado naquela posição cansativa e decidi acampar numa área mais alta e plana antes do rio mesmo. No dia seguinte eu procuraria uma forma de atravessar a mochila.

No dia seguinte, pulei da barraca já de sunga e pés de pato logo de manhã cedo quando o sol começou a esquentar – umas 8:00 hs. Caminhei pelo rio e pela minha cabeça passavam várias idéias para cruzá-lo com minha mochila.
Eu poderia colocar meus equipamentos eletrônicos e documentos dentro do saco estanque e atravessar nadando pra depois levar a mochila mais leve, ou então colocar o saco estanque com o material seco dentro da mochila, para ajudar a flutuar, mas nas duas formas depois eu carregaria uma mochila cheia de equipamentos, roupas, barraca, isolante encharcados, o que aumentaria em muito, até quase dobrando, o peso que eu teria de levar. Sorte que eu não levara saco de dormir.
Caminhando com água pelo pescoço, tive uma idéia que me pareceu um pouco ousada, mas que poderia funcionar. Prendi a respiração e deixei o corpo afundar para ver a profundidade durante aquele trecho e percebi que o nível não passava mais do que alguns dedos de minha cabeça durante alguns metros e depois voltava a ficar mais raso. Se eu pudesse prender a respiração nesse ponto e caminhar mesmo que lentamente com a mochila na cabeça, mesmo que submerso, talvez com o peso levado fora d’água, eu pudesse ter tração para caminhar pelo fundo do rio como um escafandrista segurando o fôlego. Eu sabia que conseguiria segurar por volta de um minuto ou um minuto e meio, A distância não seria mais do que dez metros, mas não conseguiria testar, pois não havia peso e eu flutuava sem conseguir tocar os pés no chão. Teria que descobrir na hora. Mas não me importei, se eu não conseguisse, bastaria jogar a mochila e sair de baixo d’água pra tomar fôlego, já deveria estar próximo de uma área mais rasa e não molharia muito a minha bagagem. O risco de afundar meu equipamento num trecho fundo do rio era pequeno também, resolvi que poria em prática esta idéia caso não achasse outra solução.DSC00674

Atravessei o rio nadando e subi a alta duna do outro lado. Para minha felicidade não havia mais vegetação e fiquei mesmo contente em voltar a ver as intermináveis dunas surgindo de repente, lá de cima era bem alto e consegui avistar uma outra pequena manchinha verde no horizonte. Quando me virei para analisar a área onde eu ainda estava acampado, percebi no local das grandes palmeiras o que parecia ser um teto de palha. Tive certeza de que era uma casa quando distingui uma pessoa no quintal. Desci na direção da casa e atravessei o rio novamente em direção àquela ilha fluvial habitada. Ao me aproximar descobri que era uma família inteira com mulher e várias crianças. Mas quando cheguei perto, todos se esconderam como se eu fosse um bicho. …ou eles.
Tratei de começar minhas perguntas pra mostrar minhas intenções pacíficas:
– Aqui é Baixa Grande?
– Tem algum lugar mais raso pra eu atravessar minha bagagem?
Aproximou-se de mim o homem da família, sendo seguido pelos demais. O homem era atlético, trajava somente um short como de futebol e muito dentuço, o que dificultava ainda mais a compreensão do que ele dizia, não bastasse seu forte sotaque do interior do Nordeste. Era como se fosse outra língua, parecia que o homem estava imitando alguém ou fazendo algum personagem de programa humorístico. Sua mulher me deu algumas confirmações, mas quem melhor se fazia entender era um garoto de seus 12 a 14 anos. Ofereceram para ajudar com uma balsa e aceitei. Levei o homem e o garoto ao local que eu acampara. Hilário era a forma como o homem evitava molhar seu short enquanto caminhava com água na metade das cochas. Enrolava a bainha do calção e cravava a vestimenta no rêgo como um fio dental ou uma tanga de sumô!

Levantei acampamento e arrumei minha mochila, depois fui até a margem do rio e esperei enquanto o garoto sumia por dentro d’água depois de uma moita de vegetação. Alguns minutos depois voltou surfando na sua “balsa”. O artefato era nada mais do que vários blocos de isopor do tamanho de tijolos de concreto, envolvidos por uma rede de nylon que lhes davam o formato de uma plataforma de 1 metro por um metro e meio de superfície. Quando ele se aproximou remando em pé naquela embarcação, coloquei minha mochila na parte da frente, ainda um pouco incrédulo sobre se ela estaria totalmente a salva de molhar. Mas fiquei surpreso mesmo quando o garoto me mandou subir também. Quase não havia espaço para nós três naquele barco que me lembrava os pedaços de isopor de alegorias de carnaval que eu brincava de navegar nas ruas alagadas pelas chuvas de verão no meu bairro. Fui sentado na dianteira com as pernas pra dentro d’água encostado em minha mochila e fiquei um pouco constrangido por estar usando como propulsão aquele garoto de seus 13 anos. A travessia foi rápida e, pra não ficar com a consciência pesada, dei a ele um trocado. Pela sua reação não consegui descobrir se ele achou pouco ou ficou grato. Mas naquela outra margem ainda subiu comigo a duna e me apontou uma outra pequena manchinha verde no horizonte, ali seria a Quebrada dos Britos, um outro tipo de oásis. Mais uma informação valiosa: segundo o menino eu deveria cruzar esta ilha de vegetação e alagadiço pela esquerda onde seria mais raso. Conferi na minha bússola e a direção apontada por ele seria a 310 graus. Perguntei se depois, para Santo Amaro, meu objetivo final, a direção seria a mesma. Recebi uma resposta afirmativa e parti.DSC00729
Uma hora e meia e lá estava eu na Quebrada dos Britos. Mais um momento de confusão depois que cruzei um filete de água que deduzi ser um rio também e subi umas dunas do outro lado. Mais uma vez tive que confiar na bússola para poder saber aonde ir. Logo depois uma baixada e por um breve trecho fui obrigado a calçar o chinelo, pois aquele pedaço estava muito seco e não corria vento, talvez por isso o chão estivesse tão quente.
Cheguei até a ficar preocupado, pois andei um bom pedaço e não vi mais lagoas. Será que vai demorar a aparecer água daqui pra frente, logo agora que estou com uma sede danada e sem nenhuma reserva?
Mas as dúvidas foram muito breves e comecei a escolher então um lugar para parar, beber água, comer, almoçar ou sei lá o que pra diminuir a fome.
Neste dia tomei muito sol e sentia a parte de traz do joelho e outros pontos do corpo ardendo, mesmo passando bloqueador solar 50. Algumas lagoas tinham a água tão quente que quando eu caminhava dentro delas sentia os peitos dos pés queimados pelo sol arderem como se a água estivesse fervendo.
Finalmente parei perto de uma lagoa, encostei a mochila numa duna e cai na água pra aliviar o calor que eu já sentia há algum tempo. Fiquei ali como já fizera outras vezes no dia anterior, ouvindo o som do silêncio. Quando o vento cessava, a aridez era tão grande que eu simplesmente não sabia se o ruído branco zumbindo era algum ruído real ou alguma coisa da minha cabeça. Era mágico. Quantos conseguem silêncio total, mesmo que em sua casa, ou seu quarto? E eu tinha isto naquela vastidão. O vento reaparecia para me dar a sensação da realidade outra vez.

E estava eu agora brincando dentro d’água. Tentava relaxar meu corpo boiando na quente piscina ouvindo os barulhos da água nos ouvidos como um bebê na gestação. Noutro momento, eu lembrava um jacaré, com o corpo todo imerso e água na linha do lábio superior, quando passa na minha frente simplesmente um porco de pelo escuro passeando despreocupadamente e fuçando a areia de vez em quando. Não nos separava mais do que dez metros e eu ali já me sentindo O Crocodilo, esperei somente ele se aproximar mais da minha mochila e pulei pra fora d’água já correndo desembestado na direção dele e acabando com o silêncio e a paz do lugar. O bicho não fez por menos e desandou a correr como nunca imaginei que um porco pudesse correr. Aquele era bicho solto e fez uma curva numa duna tentando me despistar. Alonguei o passo dando o máximo e tentando imaginar como agarrá-lo quando me aproximasse e o que eu faria com ele, mas percebi que o miserável tomava distância de mim na areia. Mais uma curva num arbusto e o diacho desapareceu certamente debochando. Na volta quase me perco, pois me distanciei muito da mochila num labirintozinho de miniaturas de dunas e lagos sem a bússola.DSC00711

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