Glaciar dos Polacos

Pisar nas encostas daquela montanha novamente me fazia automaticamente lembrar das circunstâncias da primeira experiência há quatro anos. Eu não podia deixar de sempre comparar o que eu estava vivendo agora. No final, cheguei à conclusão de que fora quase outra montanha.

De 2006 pra cá, subi algumas montanhas nevadas. Algumas com companhia. E uma delas foi o Tronador, na Argentina. Tive sorte de encontrar com Arthur Estevez na cidade de Bariloche querendo subir a mesma montanha e sem parceiro. No final conseguimos fazer cume e desde então combinávamos uma próxima escalada.

Recebi alguns convites de amigos para voltar ao Aconcagua, mas já que era pra sofrer aquilo tudo novamente, eu gostaria de fazer algo bem diferente da rota normal, que eu já conhecia. Sentir a ansiedade que antecederia o que seria pra mim um novo desafio. Eu queria tentar o Glaciar dos Polacos, pela rota direta. A face que abriga este glaciar tem um nível de dificuldade intermediário naquela montanha e a rota direta adicionaria mais aventura.

O Glaciar dos Polacos fica na face nordeste da montanha ligeiramente oposta à rota normal. Esta última, na face noroeste, costuma ter bem menos neve pois recebe a maior parte dos ventos que a carregam para ser depositada na face sul e nos glaciares do leste.

Em 2010, quando eu começava a planejar alguma montanha na Bolívia, Arthur me perguntou se eu não queria voltar ao Aconcagua.

– Só se for pela Polacos Direta. Respondi.

Achamos que já estávamos prontos para encarar uma rota um pouco mais técnica na maior montanha das Américas e sugeri que nos preparássemos para a temporada de 2011. O negócio é que eu pensava em dezembro de 2011 e Arthur já planejava para janeiro. Quando percebi o que ele quis dizer, fiquei um pouco assustado com o pouco tempo que eu teria para treinar e organizar todos os detalhes da expedição, mas mesmo assim sugeri o período entre o natal e o meio de janeiro. E porque não também fazer alguma alta montanha no meio do ano? Seria um belo treino. O colega russo Alexey Maylibaev convidou para escalar no Peru e o treino estava acertado.

Aos poucos Arthur foi chegando com as notícias de apoio das marcas representadas pelas empresas Proativa e Verticale. Pudemos então contar com equipamentos excelentes da Deuter, Princeton Tec, Lorpen e Edelweiss e eu ainda com o apoio da Associação da minha empresa, a Assiplan.

Rotas do AconcaguaApesar de ter escalado três montanhas por volta dos 6.000 m no Peru e estar com um certo ritmo de treinamento, eu tinha a impressão de que em 2006 eu estava muito melhor preparado. O que era alguma preocupação, visto que eu imaginava que o esforço seria muito maior desta vez. Eu não conseguia me ver na condição que eu me encontrava quando cheguei ao cume, sem aguentar dar um passo antes de respirar profundamente, e tendo que escalar um lance de rocha de vinte metros que fosse. A quase 7.000 m de altura, com todo o peso do equipamento e mais alguma coisa (parafusos, estacas, corda, mosquetões, capacete), seria um esforço hediondo, mesmo para um terceiro grau. E os lances de 60 graus de inclinação? É a inclinação das paredes do Morro da Babilônia. Isso seria extremamente desgastante progredindo reto para cima por 100 metros.

Cruzar novamente a cordilheira dos Andes na estrada de Santiago do Chile a Mendoza, me transportou no tempo também. Eu acompanhava cada detalhe da ferrovia abandonada que seguia paralelamente a estrada e que ainda resistia ao tempo. Por vezes desaparecida sob algum desmoronamento e outras vezes serpenteando intacta através dos numerosos túneis na rocha.

Na fronteira, alcancei o ponto mais alto do percurso, por volta de 3.100 m e a cabeça pesou. Ao sair do ônibus para os procedimentos de imigração, senti repentinamente o ar frio e seco doer as narinas e o vento frio em contraste com o calor abafado de Santiago. Na rodoviária de Mendoza, fui recebido pelo casal de amigos Sebastian e Caro que me acompanharam até o Hostel onde Arthur se hospedara. Larguei minhas coisas lá também e saímos para jantar. Sentados num restaurante de frente para uma praça com guarda-sóis vermelhos e mesas na calçada, onde em 2006 comi uma hamburguesa, contamos nosso primeiro perrengue financeiro com o aumento da permissão de escalada em 50% -só para o governo de Mendoza, estávamos desembolsando 1.500,00 reais. E nossa pretensão de economizar ao máximo dali pra frente. Talvez por isso também, o casal tenha nos convidado para um assado em sua casa no dia seguinte e oferecido uma pernoite lá antes de partirmos para a região do parque.

Sebastian e Caro
Sebastian e Caro

O assado argentino é uma espécie de churrasco com alguns legumes também feitos na brasa. Além disso, tínhamos uma piscina no quintal para aliviar do calor mendocino que só se diferenciava do carioca por ser extremamente seco. Aproveitamos bem com a consciência de que não veríamos banho e carne por quase um mês.

Sebastian já esteve no topo do Aconcagua por três vezes e o conheci lá em 2006 em sua segunda vez. Depois, voltou com uma equipe de cientistas para ajudar na manutenção dos equipamentos de medição que lá estão instalados no topo. Seba nos forneceu muitas informações importantes e contou algumas estórias curiosas a respeito do andinismo em Mendoza e no Aconcagua. Segundo ele, esta estava sendo uma das temporadas mais frias e há dois dias haviam sido registrados ventos de 100 km/h no cume. De conhecimento desta última notícia, Arthur ficou um pouco apreensivo pois optara em não levar os gogles (máscara de esqui). Nos contou a história de uma gigantesca expedição japonesa de uma empresa multinacional na década de 90 que ocupou o acampamento de Plaza de Mulas e consumiu todos os recursos de infra-estrutura de mulas, porteadores para colocar uma grande equipe no topo, com cinegrafistas espalhados pelo caminho, para produção de um documentário. Conversamos sobre o acidente do mendocino Federico Campanini e Seba contou alguns detalhes. Seba estava se preparando para retornar em dois meses para ajudar a levar o equipamento chamado gravímetro de 45 quilos lá pra cima que serviria para um estudo sobre a força da gravidade no local. Os cientistas queria saber se a força da gravidade age com maior ou menor intensidade naquela altitude e se o enorme volume de massa da montanha também influi alterando a intensidade da atração gravitacional. Perguntei se ele sabia como ia levar o equipamento, que não podia ser desmontado, mas não havia sido decidido ainda. Talvez fosse carregado por porteadores peruanos.

Os porteadores nos Andes são os equivalentes aos sherpas no Himalaia. Trabalham como carregadores de altitudes levando até 30 quilos, subindo várias vezes ao dia entre um acampamento e outro, montando barraca, fazendo comida e ocasionalmente servindo como guias ou assistentes para os clientes de expedições comerciais. Cada trecho feito por eles custa em torno de 100 dólares, seja subindo ou descendo. Isto, é claro, estava fora de nosso orçamento. E, segundo nosso plano de aclimatação, iríamos fazer cada trecho entre os acampamentos superiores duas vezes. Uma para transporte de carga e outro definitivo. Isso nos possibilitava levar 15 quilos cada um em cada viagem, uma vez que nossa carga total era de 60 kg incluindo equipamentos técnicos e comida.

A aproximação de três dias até o acampamento base ainda não estava totalmente decidida. Na noite anterior, conversamos sobre estes detalhes pendentes, ainda considerávamos uma pequena hipótese de não pagar o serviço de mulas para diminuir o nosso prejuízo total com os 500 dólares do aumento da taxa da escalada que juntos teríamos que pagar. As mulas no Vale de Vacas custam o dobro do preço do mesmo serviço no Vale de Horcones. A empresa mais barata que encontramos cobrou 290 dólares. Além do caminho ser mais longo, sessenta quilômetros até Plaza Argentina contra quarenta até Plaza de Mulas, muitos dos que contratam as mulas para Plaza Argentina fazem a travessia e voltam pelo outro vale. Assim as mulas fazem uma viagem somente com carga enquanto as outras do outro valem fazem ida e volta com clientes.

Essa era nossa idéia também. Queríamos voltar pelo outro vale. Queríamos aproveitar que estaríamos mais leves, sem o peso da comida, combustível e descendo, para não contratar as mulas na volta. Por Horcones seriam somente dois dias. Seria mais interessante fazer um caminho diferente para voltar, para mim relembrar 2006 e para Arthur conhecer o outro lado da montanha. Talvez uma visita à face sul…

18 comentários em “Glaciar dos Polacos”

  1. Fala Jr. Pude sentir a vibração nas palavras do teu relato ( 1ª parte). Isso é muito bom e ajuda na recuperação. Li agora sua resposta sobre o congelamento.Já passei um perrengue levemente parecido pois quando fui a primeira vez no Aconcagua, via normal,cheio de planos e sonhos, estava calçando uma bota La Sportiva mista.Inocentemente achei que seria suficiente.Ainda bem que o bom senso prevalesceu e decidi voltar de Nido, com os dedos do pé direito duros e sem sensibilidade.Nada de mais, felizmente.Mas, uma lição eu aprendi: Quanto menos se respeita a montanha, mais perigosa fica a escalada.Jamais se pode subestimar uma montanha e ainda mais a Sentinela de Pedra. Um grande abraço e melhoras.

  2. Junior, um livro só é pouco pra vc contar suas aventuras e historias! Mas seria uma satisfaçao ler, vendo só pela amostra daqui! Parabens pelo feito e pelo relato, pq é no relato q nós,simples mortais (ehehheh) podemos sentir um cadinho do seu feito! Valew!

  3. “sentei num tufo daquelas gramíneas e imediatamente senti as nádegas pegando fogo! ”
    Então quer dizer que vc ficou com fogo no rabo e nao me falou nada????????

    hehehehehehhehehehehhehehehe
    Kmon cara… seus textos estão ficando 10!!!!

  4. Meu velho, estava esperando por isso… pelo seu relato repleto de detalhes e de emoção… irado demais! Parabéns a vcs mais uma vez… E como tá o pé do Arthur?

    Abraço!

  5. Paulo,
    mais uma vez me empolgo e me emociono com seus relatos. Além de ser um montanhista brilhante vc escreve como ninguém.
    A cada relato seu eu entendo mais os seus motivos para gostar e viver neste esporte. É isto que faz o sangue correr nas veias. Apesar dos riscos, a experiência adquirida em cada jornada e a sensação de superação e conquista não tem preço.
    Parabéns mais uma vez a vcs por mais esta vitória.
    Um grande abraço, Gisele

  6. Hi,
    I´m the guy who you met on your way down to C1. We took some photos of you on the glacier on your summit day. I sent you an email on the adress you gave me. Obviously it did not arrived. Write me your correct adress so I can send you those photos.
    I hope your toes are all right already.
    Best regards
    Milan Keslar

  7. Paulo,
    Sua narrativa é rica e me emociona sempre que a leio.
    Pense em transcrever os seus relatos e os do Arthur para um livro, que tal?
    Boas montanhas!
    Beijos

  8. Junior, só li este relato hoje… está show mesmo. Foi realmente “animal” esta escalada de vocês, fiquei imaginando o caminho todo enquanto lia, temos poucos livros sobre escalada alpina de Brasileiros, você poderia em breve enriquecer esta biblioteca com um livro, espero que você consiga mais alguns feitos, tem muita montanha ainda te aguardando! Abç. Dago

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