Glaciar dos Polacos

Expectativa

No dia seguinte não fizemos o dia de descanso e movemos nosso acampamento do 1 para o 2. A subida foi um pouco menos dura, pois pelo menos eu já sabia que ela terminava e onde. Eu voltara a usar as botas duplas, administrando as bolhas com fitas, esparadrapos e guardando para o dia do cume uns curativos próprios para bolhas que Arthur trouxera e me ofereceu. Era uma espécie de adesivo de espuma em forma de círculos de vários tamanhos e vazados no meio para acomodar a bolha.

Depois de montar a barraca, fomos nos abastecer com benzina deixada lá pelos grupos que voltavam mais leves. Nossos dois litros iniciais já estavam no final e garantimos mais um litro.

De acordo com nosso planejamento, precisaríamos ficar dois dias no campo 2 aclimatando antes de tentar o topo no dia 9. Mas este dia era o dia da neve pela tarde.  Aguardaríamos um mais para, na véspera, contactar o acampamento base via rádio e nos informar sobre o clima. Cheguei a cogitar a hipótese de, por conta da meteorologia, anteciparmos a tentativa de cume para o dia 8, mas Arthur discordou com razão. Não seria suficiente para nos acostumarmos com a altitude. Precisávamos ter certeza que estaríamos em perfeitas condições físicas para a escalada.

Meses antes, eu havia mandado emails para as listas de discusão sobre montanhismo de que faço parte buscando opiniões de quem por ventura houvesse escalado esta rota. Recebi uma resposta de Rudah do Rio Grande do Sul que definiu a diretissima como mais tranquila para subir, mas complicada em caso de abandono e retorno devido a alguns trechos mais íngremes.

Quando conversamos com o guia peruano Abu, tivemos esta definição:

– O Glaciar dos Polacos é fácil, mas muito perigoso! Complicado para desistir e voltar por ele.

Além dessas informações, eu já tinha conhecimento de pelo menos uns dois relatos na internet sobre acidentes fatais ali.Um ao tentar retornar e outros num tempestade no próprio acampamento. Além disso, na semana anterior havia morrido uma americano que subiu pela polacos. Provavelmente se esforçou além do que podia para sair por cima e morreu na descida, pela rota normal, após chegar ao cume. Foi vítima de edema pulmonar e graves congelamentos devido à tempestade que o surpreendeu na volta.

O maratonista e escalador carioca Fernando Vieira, conhecido por sua força e velocidade na escalada, também tem uma estória na direta da Polacos. Encontrou um parceiro na montanha para acompanhá-lo, mas este veio a falecer na tentativa. Fernando chegou ao topo, saindo da rota, escalando lances de rocha ao invés de seguir pela neve. Ouvi a estória pelo Flávio Carneiro, o Bagre, e Arthur pôde saber dos detalhes quando pegou o piolet emprestado do próprio Fernando.

Em 2009, um vídeo repercutiu pela internet e TV  mundial mostrando o resgate frustado do guia argentino Federico Campanini que acompanhava um grupo de clientes pela rota normal. Os montanhistas  chegaram muito tarde  no cume e o guia vinha subindo distante, mais atrás, já sofrendo sintomas de edema pulmonar. Cansados, confusos e com o tempo fechado, os clientes tomaram a direção do Glaciar dos Polacos na descida. Somente após duas noites esperando socorro, um grupo de resgatistas alcançou os montanhistas . A italiana Elena Senin já havia falecido, vítima de uma queda de centenas de metros por não ter equipamentos técnicos para o glaciar. Os outros três clientes italianos foram salvos, mas Federico foi deixado ainda com um sopro de vida depois de infrutíferas tentativas de arrastá-lo de volta para cima.

O pai teve acesso então ao chocante material que trazia registrados os últimos instantes do filho e desde então lutou para provar que houve negligência na condução deste que foi o resgate de maior mobilização da estória da montanha. Aliado à comoção pública, conseguiu que o o chefe dos resgatistas fosse exonerado do cargo. O pai faleceu no ano seguinte.

A família da italiana doou recursos para a construção de um novo abrigo de emergência na rota normal, no acampamento Cólera,  que passou a se chamar refúgio Elena.

Todas essas estórias me traziam a certeza de que uma vez começado a escalada, ela teria de acabar no topo.

Então que esperemos pelo dia 10 ou 11.

Mas esperar confinados num espaço de 2×2 sem ter muito o que fazer e ante tamanho desafio e riscos fazem a mente trabalhar contra nós. Ou a favor de nossa integridade. É esperando pela batalha, que muitos exércitos se acovardam. É preciso ter muito equilíbrio para afastar os pensamentos paranóicos sem perder o bom senso. Passávamos o tempo lendo, jogando conversa fora, fazendo pequenos reparos nos equipamentos, com os jogos do celular e com as tarefas diárias de derreter gelo, fazer comida e tomar líquidos.

Neste primeiro dia de folga no acampamento, vimos uma dupla descendo pela nossa rota e fomos ao encontro deles para saber as condições. Eram dois russos, um falava muito mal o inglês e o outro sabia algumas palavras de espanhol. Depois de muita dificuldade, entendemos que eles tinham subido somente 200 metros e comentaram que não havia muita neve. No máximo até à canela. Contaram que estavam aguardando alguém subir antes deles para abrir o caminho…

Mais tarde, um grupo maior, mas microscópico pela distância, descia, desta vez pela rota clássica. Menos inclinada e acompanhando a borda esquerda do glaciar numa grande curva. Mesmo assim o grupo parecia descer lentamente e com dificulfdade, usando corda em alguns lances. Não conseguimos encontrá-los para colher informações.

Neste dia também fizemos contato com o Acampamento Base via rádio, mas nem precisava. Estávamos no dia 8 e a neve nem esperou pela tarde do dia 9 para cair. Com o entardecer, começou pesadamente e assim permaneceu a noite toda e o próximo dia inteiro.

Após novo contato com os guarda-parques de Plaza Argentina, ficamos sabendo que o dia seguinte seria de céu azul, mas com ventos de 50 km/h. O dia 11 teria somente 20 km/h e isso era uma brisa no Aconcagua. Tínhamos que torcer para durante o dia anterior ventar bastante e fazer calor para soprar ou derreter a neve do glaciar e durante a noite fazer bastante frio para endurecer o que restasse. Ou…

Talvez no dia 12 tivéssemos mais um dia propício, sem nuvens e pouco vento. Não seria melhor esperar mais um dia ainda pra garantir melhores condições no glaciar? Pedi a Arthur que perguntasse sobre o prognóstico do dia 12 enquanto ainda estava no rádio com os guardas. Mas Arthur não ouviu ou não achou necessário. Talvez não conseguisse se imaginar mais um dia de expectativa, enfurnado na gaiola de nylon. Nós dois já não víamos a hora de começar o retorno. Não precisar  urinar na garrafa a alguns centímetros do parceiro. Respirar ar puro ao invés do ar malcheiroso da barraca de dois marmanjos, 15 dias sem banho e usando as mesmas roupas. Usar uma privada limpa ao invés de evacuar atrás de uma pequena rocha, indignamente, quase em praça pública sob os olhares dos outros montanhistas. Comer um lomo, o filé mignon argentino, em Mendoza. Tomar um suco de fruta real, ao invés de pó químico…

Outra vantagem também é que se o dia 12 fosse de bom tempo também, seria um dia de novo intento caso a tentativa do dia 11 fosse fracassada.

O dia seguinte foi extremamente azul, com o sol derretendo um pouco da camada de meio metro de neve que se formou pelo acampamento. Conversamos com um guia argentino chamado Julio que nos deu cereais, biscoitos e capeletti que estavam sobrando nos mantimentos de sua expedição. Isto foi bem providencial, pois nossa comida começava a ficar na conta certa, com os dias a mais além do planejado. Seu grupo sairia à tarde para a travessia e acamparia nas proximidades de Cólera. Julio nos incentivou dizendo que a direta seria fácil e detalhou cada parte da rota, segundo havia ouvido falar. Julio nunca teve oportunidade de fazê-la.

Esta seria a grande noite, preparamos o equipamento e o colocamos nas mochilas de ataque. Vestimos todas as roupas de baixo que usaríamos durante a escalada e nos aninhamos no saco de dormir. No início da noite a temperatura estava igual aos outros dias: -18º.

Fomos dormir antes das 22 horas, torcendo para descansar o máximo possível até as 4:30. Antes de cair no sono, pedi à vovó, à bisa, ao sensei e a mais quem conseguisse me ouvir que eu tivesse muita força, perseverança e bom senso no dia seguinte.

18 comentários em “Glaciar dos Polacos”

  1. Fala Jr. Pude sentir a vibração nas palavras do teu relato ( 1ª parte). Isso é muito bom e ajuda na recuperação. Li agora sua resposta sobre o congelamento.Já passei um perrengue levemente parecido pois quando fui a primeira vez no Aconcagua, via normal,cheio de planos e sonhos, estava calçando uma bota La Sportiva mista.Inocentemente achei que seria suficiente.Ainda bem que o bom senso prevalesceu e decidi voltar de Nido, com os dedos do pé direito duros e sem sensibilidade.Nada de mais, felizmente.Mas, uma lição eu aprendi: Quanto menos se respeita a montanha, mais perigosa fica a escalada.Jamais se pode subestimar uma montanha e ainda mais a Sentinela de Pedra. Um grande abraço e melhoras.

  2. Junior, um livro só é pouco pra vc contar suas aventuras e historias! Mas seria uma satisfaçao ler, vendo só pela amostra daqui! Parabens pelo feito e pelo relato, pq é no relato q nós,simples mortais (ehehheh) podemos sentir um cadinho do seu feito! Valew!

  3. “sentei num tufo daquelas gramíneas e imediatamente senti as nádegas pegando fogo! ”
    Então quer dizer que vc ficou com fogo no rabo e nao me falou nada????????

    hehehehehehhehehehehhehehehe
    Kmon cara… seus textos estão ficando 10!!!!

  4. Meu velho, estava esperando por isso… pelo seu relato repleto de detalhes e de emoção… irado demais! Parabéns a vcs mais uma vez… E como tá o pé do Arthur?

    Abraço!

  5. Paulo,
    mais uma vez me empolgo e me emociono com seus relatos. Além de ser um montanhista brilhante vc escreve como ninguém.
    A cada relato seu eu entendo mais os seus motivos para gostar e viver neste esporte. É isto que faz o sangue correr nas veias. Apesar dos riscos, a experiência adquirida em cada jornada e a sensação de superação e conquista não tem preço.
    Parabéns mais uma vez a vcs por mais esta vitória.
    Um grande abraço, Gisele

  6. Hi,
    I´m the guy who you met on your way down to C1. We took some photos of you on the glacier on your summit day. I sent you an email on the adress you gave me. Obviously it did not arrived. Write me your correct adress so I can send you those photos.
    I hope your toes are all right already.
    Best regards
    Milan Keslar

  7. Paulo,
    Sua narrativa é rica e me emociona sempre que a leio.
    Pense em transcrever os seus relatos e os do Arthur para um livro, que tal?
    Boas montanhas!
    Beijos

  8. Junior, só li este relato hoje… está show mesmo. Foi realmente “animal” esta escalada de vocês, fiquei imaginando o caminho todo enquanto lia, temos poucos livros sobre escalada alpina de Brasileiros, você poderia em breve enriquecer esta biblioteca com um livro, espero que você consiga mais alguns feitos, tem muita montanha ainda te aguardando! Abç. Dago

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