Mont Blanc, Fácil e Perigoso

Cume

O refúgio Du Goûter era composto de duas sólidas construções de concreto e aço desafiando valentemente a borda da parede, com algumas passarelas suspensas alem do limite da montanha. O glaciar atrás do Refúgio parecia querer empurrar esta construção da borda, estando em constante batalha com os responsáveis pela sua manutenção, pois entre a parede do refúgio e a parede de gelo havia somente um espaço pouco maior do que um metro, várias pás de neve e várias marcas de raspagem. O pessoal usava esse local para derreter neve e fazer água. No espaço entre as duas casas havia um banco de madeira estreito muito disputado pelo pessoal que se aprontava para subir ou descer ou somente para os que buscavam o calor do sol ou, como eu, esperavam o tempo passar.

Glaciar
Glaciar Bionassay

O tempo estava maravilhosamente quente, ensolarado e sem uma única brisa. Por isso eu já contava totalmente com o bivaque ali fora, mas eu estava sem saco de dormir ou isolante, imaginei que o melhor seria deitar ali no banco mesmo quando chegasse a noite.

Gouter

Passei o resto do dia vendo a movimentação das pessoas. Um homem ao meu lado com roupas simples, bem diferente do verdadeiro desfile de marcas caras que era os equipamentos usados pelos europeus, tentava consertar um antigo crampon. Em certo momento pediu para apoiar o pé no meu piolet enquanto tentava calçar o equipamento. Num outro momento, alguém apoiou uma escada podre em cima do estreito banco para colher neve limpa da canaleta do telhado do refúgio. Eu utilizei a neve raspada da parede nos fundos do refúgio mesmo. Os fósforos, pedi emprestado, pois deixara os meus lá no armário do outro refúgio. Graças a deus, tinha decidido de última hora trazer o fogareiro a gás. Enquanto eu esperava, eu pensava mais na descida do que no caminho que me esperava até o topo.

A noite chegou devagarzinho por volta das 21:40 e quando o movimento lá fora diminuiu e ninguém mais utilizava o banco ou a área entre as duas casas, vesti luvas, gorro, fechei meu anorak, botei o capuz e deitei.

Mas meu sossego não durou muito. Com a escuridão da noite, começou um novo movimento de gente lá fora com lanternas de cabeça me ofuscando. Tive a impressão de estar atrapalhando, o pessoal novamente se aprontava e compreendi que era a primeira leva de alpinistas para o cume. Com o cair da noite por volta das 22 e o alvorecer as 4:30, sobrava seis, 7 horas de noite. Período que alguns alpinistas utilizavam para escalar, aproveitando a neve dura e os primeiros raios de sol já no cume.

Não sei se eu atrapalhava mais do que atraía a compaixão, mas uma mulher me chamou, dizendo que eu poderia dormir dentro do refúgio, em cima das mesas.

– Go to inside the refugee. You can sleep on the table. You can. – Disse em inglês.

Levantei meio zonzo e agradeci, me dirigindo para dentro da construção principal. Abri a porta, passei pelo cômodo intermediário onde o pessoal deixava crampons, cordas, etc, passei pelo segundo onde largavam as botas e mochilas e atravessei o refeitório, procurando uma mesa ou banco que já não tivesse alguém estirado em cima e tomando cuidado para não tropeçar em nada na escuridão. Logo que entrei, senti o ambiente extremamente quente, provavelmente por algum tipo de aquecedor e já tirei o gorro da cabeça. Encontrei a última mesa lá no fundo vazia, mas com alguém dormindo embaixo, assim, fiz dela uma “mesa beliche”.
O calor daquela sala, me fez, aos poucos, ir tirando luvas e botas, sempre com o máximo de cuidado pra não fazer barulho, já que o menor ruído de atrito de roupa parecia um estardalhaço no silêncio do refeitório-dormitório.
Não foi nada difícil mergulhar num sono profundo, mas as duas da manhã fui acordado com a maior algazarra de gente se preparando para escalar. Não teve jeito, falatório, luzes… Levantei e, não tendo alternativa, decidi também sair naquele horário para tentar o cume. As três da manhã eu já estava caminhando com o escuro da noite suavizado pela intensa luz da lua cheia.
NoiteTambém não foi difícil acompanhar o caminho pisoteado na neve. Cruzei o acampamento do pessoal que não quer ficar no refúgio e burla a proibição de acampar. Segui por uma crista com a facilidade que a noite trazia de esconder os penhascos que beiravam o caminho.
Agora eu estava galgando uma imensa rampa larga e pisoteada como se tivesse sido palco de uma corrida de cavalos.
O difícil era encontrar o lugar mais apropriado para pisar, escapando da neve fofa e buscando o caminho mais compactado. Eu fiquei um pouco frustrado, pois freqüentemente era ultrapassado por outros grupos e imaginei que pudesse ser devido à falta dos bastões de caminhada, às minhas pesadas botas plásticas duplas ou um melhor preparo físico deste pessoal, claro.

Uma ligeira descida e eu estava num outro grande platô de neve. Quase passei despercebido por um abrigo mais simples, mais distante, do meu lado esquerdo.

Resolvi entrar por curiosidade e para descansar alguns minutos.

O abrigo consistia em uma forte casa nos moldes dos abrigos anteriores com um único cômodo de uns 8×8 m onde alguns dormiam e outros se aprontavam com o auxílio das luzes azuis de suas headlamps. Sentei em um degrau próximo da porta e fiquei alguns instantes observando o ambiente. Quando passei o olho no piso de borracha, vi um cordelete azul de uns 6 mm de espessura e uns 2 metros de comprimento. Meio constrangido, tomei-o nas mãos e perguntei a um homem que me observava, se era dele.

Com a resposta negativa, uni as pontas com um nó pescador duplo e já tinha encontrado minha precária solteira.

Retomei a escalada, agora com a claridade do dia alaranjando o céu ainda escuro. O caminho foi beirando umas bordas estreitas e a claridade foi mostrando os precipícios na neve. No alto de uma elevação, avistei um trecho bem surpreendente. A colina de neve onde eu me encontrava se unia à massa de gelo do cume por um colo estreito, muito fino, com dois precipícios de cada lado. De onde eu estava então, via o caminho inteiro agora subindo bem rente a uma borda de pedra e depois seguindo pela longa crista afiada rumo ao cume. Para trás o céu tinha a cor lilás.

Que vontade de fotografar e filmar tudo, mas desde o dia anterior, eu me via diante um triste problema. As pilhas recarregáveis que eu tinha levado haviam descarregado ou por causa do frio ou pelo seu já longo tempo de vida. Minha ideia era economizar o máximo, tirar a foto no cume e depois, na descida, fazer todas as fotos que eu não fizera na subida.

Mont BlancContinuei o caminho. E que caminho incrível. Inacreditável subir e andar por aquela estreita crista. Em alguns pontos era necessário descer um pouco pela borda para que um outro grupo pudesse cruzar voltando. Agora eu avistava alguma aglomeração de gente e deduzi ser o cume. Não demorei muito e eu chegava. Meio sem saber onde me posicionar pela falta de espaço e por algum número de alpinistas, logo me chamou a atenção um parapente vermelho vivo sendo inflado, enquanto o sujeito tentava desfazer uma confusão de cordas para alçar voo e descer em grande estilo.

Aquilo me deixou encantado e saquei a câmera para filmar a incrível decolagem. Mas o problema no parapente arrastou o homem alguns metros e o vôo não saiu. Aquilo já me deixou apreensivo, pois não havia muito espaço para falhas. Nova tentativa e comecei a filmar. O alpinista voador começou a ser então arrastado pelo parapente naquela estreita rampa, mas as cordas do equipamento de novo continuaram emboladas enquanto o sujeito cada vez mais era arrastado para a borda da montanha, já lutando para se manter ali, no último instante conseguiu murchar de algum jeito o velame e evitar o pior. O sujeito então decidiu descer e desistir do voo. Para o meu terror as pilhas acabaram na metade deste desfecho.