Tocllaraju

Relatório de viagem – Peru 2010

Escalar três montanhas no Peru era parte do treinamento que adotamos para a nova empreitada: o Glaciar dos Polacos no Aconcagua, para final de 2010.

Combinamos a viagem com mais três: Adriana, Nuria e o amigo russo Alexei Mailybaev, que idealizou as escaladas das montanhas Pisco 5.752 m, Artesonraju 6.025 m e Huascaran 6.768 m, a mais alta do Peru. A primeira rota é classificada como AD- (algo difícil), mas as outras duas seriam D (difícil)* e, considerando que o Huascaran é somente 200 metros mais baixo que o Aconcagua, o nosso treinamento corria o risco de ser até mais difícil ou arriscado do que o próprio Glaciar dos Polacos.

Esfinge

Arthur tinha mais tempo livre e decidiu ir antes para escalar a Esfinge. Uma escalada big wall de dois a três dias para alcançar o topo dos 5.325 m desta formação de granito. Teve como parceira a escaladora do sul Andrea Dalben. Também subiu o Vallunaraju 5.780 m, o Maparaju 5.326 m e escalou em vias esportivas a 4.200 m em Hatun Machay.

Grandes escaladas como essas começam muito antes, na escolha de equipamento, nas reuniões com os integrantes. As do grupo que chegou no Peru depois, tiveram um problema logo no início. Logo nos primeiros dias, ainda na cidade de Huaraz, o grupo se separou por um desentendimento entre as meninas.

Cume do Pisco

Apesar de separados, todos se encontraram no último acampamento do Pisco, o campo Moraina. Encontramos inclusive com Emilia Takahashi, minha amiga paulista e ex-parceira de montanha que também estava no Peru para tentar várias montanhas também. Só não encontramos Arthur que, apesar de ter combinado o encontro para o ataque ao cume juntos, não conseguiu aparecer. Alexei e Adriana chegaram ao topo no mesmo dia em que Emilia e a maioria dos alpinistas que lá estavam chegaram. Nuria e eu achamos melhor deixar para tentar o cume no dia seguinte, que estava com mais nuvens e vento, mas com menos pessoas na rota e, para nós, parecia mais apropriado em relação à aclimatação também. Bebendo bastante água e subindo devagar, não tivemos maiores problemas em chegar ao cume.

Pisco

De volta a Huaraz, encontramos com Arthur, que sugeriu escalarmos o Tocllaraju, com 6.032 m uma vez que o grupo estava separado e a temporada lá no Peru estava meio estranha. Pouca neve tornava as outras duas montanhas que queríamos escalar mais perigosas e provocavam acidentes em várias outras.

Acidentes

Yanapaccha

Quando eu e Nuria descíamos do Pisco, estranhamos a montanha deserta e descobrimos que o motivo era o resgate do corpo de um guia americano da famosa empresa Mountain Madness que caiu numa greta na montanha ao lado, o Yanapaccha. Um mês antes, no próprio Pisco, um famoso esquiador americano chamado Arne Backstrom, tentou descer a montanha esquiando e faleceu ao cair numa greta de 100 metros de profundidade, tornando se a primeira vítima fatal da temporada. Em julho, uma experiente dupla de escaladores espanhóis tentava abrir uma rota numa parede do difícil Chacraju quando foi atingida por uma avalanche que matou os dois. Enquanto estávamos lá, um outro acidente aconteceu, desta vez na montanha Alpamayo. Um argentino que escalava sozinho morreu ao despencar em cima de uma dupla de austríacos. A dupla seguia internada em estado grave. E o Huascaran há alguns anos tem a sua rota normal mais perigosa com o aquecimento gradual do globo terrestre. Frequentes avalanches tornam o trecho entre o acampamento 1 e o acampamento 2 uma tarefa muito perigosa. Por tudo isso, decidimos pelo Tocllaraju. Bonito, algo técnico e era um 6000!

Ishinca e Tocllaraju

TocllarajuUma vez que íamos para o acampamento base do Ishinca para acessar o Tocllaraju, decidimos escalar o Ishinca primeiro para aclimatar e aproveitar a viagem. Com isso poderíamos levar a Nuria, já que a rota não é complicada. Depois ela nos esperaria no acampamento base enquanto estivéssemos no Toclaraju.
Ishinca

Mas ainda em Huaraz, Nuria adoeceu e precisamos de mais dois dias para esperar ela melhorar. Em Ishinca, Nuria teve dificuldades na aproximação do acampamento base e sentiu-se muito fraca, ainda não recuperada da desidratação que sofreu nos dias que esteve doente. Desistiu do Ishinca ainda no início e retornou ao acampamento base. No topo, somente esteve Arthur e eu.

Nos dias que se sucederam, tivemos um vento muito forte, em torno de 50 kmh, que nos apanhou as 5 da manhã, na hora mais fria do dia, na crista do Tocllaraju. Tínhamos acabado de vencer o lance de uns 20 metros  de 90º e os dedos estavam gelados e doendo de frio pelo contato com o gelo, mas não podíamos parar. No tramo final encontramos um belo lance de uns 60 metros de gelo com 60º e mais uma vez pisamos no topo, desta vez acima dos 6.000 m. Para descer utilizamos as duviosas, mas salvadoras proteções fixas no gelo para três rapéis. Algumas só possuíam um cordelete de 5 mm poído com uma argola de metal na ponta, emergindo da neve congelada para a exposição ao frio e radiação ultravioleta dia após dia…

Topo Proteção do rapel Arthur

 

Análise de equipamento

Para conseguir nosso intento, contamos com alguns equipamentos essenciais fornecidos pela Deuter, Princetontec e Lorpen.

Mochila cargueira Deuter Aircontact PRO 70+15

Mochila Deuter Aircontact PRO 70+15

Quando troquei minha mochila antiga de 105 litros pela Deuter Aircontact PRO 70 + 15, tive alguma dificuldade no início para me adaptar até entender que eu teria que me organizar melhor e selecionar com mais prioridade o que levar. Os bolsos laterais ainda acrescentam mais 10 litros de volume. Outra opção também é adquirir equipamentos mais modernos e menos volumosos. Nas costas ela é extremamente confortável, mesmo com bastante peso (Carreguei em torno de 30 kg). A dayse chain dupla na parte frontal dela também facilita bastante o processo de acoplar uma mochila menor de ataque ou simplesmente amarrar um isolante térmico, barraca, saco de dormir. Possui um acessório que me agrada bastante: um bolso na barrigueira que posso usar para dinheiro, carteira ou qualquer outra coisa que precise ficar a mão. Acho bastante importante para não precisar ficar parando, tirando a mochila pesada das costas e a recolocando. A regulagem de aperto da barrigueira é ótima, fazendo uma espécie de polia, não parece que vai afrouxar nem em dez anos, mas com isso, o fecho jacaré de nylon parece que pode não aguentar. A mochila possui incontáveis recursos, fitas, zíperes, acessos, regulagens, porta piolet e é aquele tipo de equipamento que chamamos de inteligente. Vai ser bem difícil encontrar alguma coisa nela que poderia ter sido feito melhor. Se você encontrar, deve ser porque você não entendeu direito…

Headlamp princetontec Apex

Princetontec Apex

A potência dessa lanterna é realmente impressionante. Usando quatro pilhas AA, tem um facho extremamente claro com alcance de até 86 m. Cinco modos de iluminação: amplo forte, amplo fraco, direcional, forte, direcional fraco episcante. Possui o recurso interessante de piscar a luz, alertando quando deixada muito tempo nos modos mais fortes, que consomem mais pilhas. Não confundir com bateria fraca. Se você precisa encontrar seu caminho ou via na montanha à noite, vale a pena usar este equipamento, mesmo que mais pesado que a média das headlamps.

 

Meia Lorpen Trekking & Expedition

Meia Lorpen Trekking & Expedition

Quando tomei conhecimento dessas meias tive a maior curiosidade de experimentá-las pois nunca imaginei que um simples par de meias pudesse ter tanta tecnologia quanto a descrita em suas especificações. Na verdade a meia é tão confortável e quentinha que fiquei com pena de usá-la com minhas botas velhas na primeira montanha. Usei minhas duas meias de lã de lhama que deixam um monte de cabelo dentro das botas. Na segunda montanha resolvi testar ameia pela primeira vez e coloquei ela diretamente no pé sem liner. Pensando em proteger a meia da Lorpen, coloquei uma de lã por cima e, como minha bota é um pouco maior, com as duas meias, minha bota ficou muito bem ajustada.Achei que foi demais, não estava tão frio e meus pés ficaram encharcados de suor. A bota plástica não respira! Naúltima montanha resolvi usar somente a meia da Lorpen e foi o dia que mais pegamos frio com sensação térmicaprovavelmente de -20 a -30, e não senti nenhum frio nos pés usando-a com minha bota dupla Koflach Artic Expedition. Depois do Peru, utilizei as meias Lorpen novamente, mas para esquiar e fazer snowboard e ela se mostrou muito confortável novamente, mantendo os pés aquecidos mesmo encharcados dentro das botas. O investimento neste tipo de equipamento não é muito pequeno, mas pode ser considerado até como um item de segurança, caso você váenfrentar uma alta montanha ou glaciar. Pode compensar o investimento também caso você esquie com regularidade ou simplesmente não abra mão de dormir bem com os pés aquecidos.


Saco de dormir Deuter Atmosphere 750

Saco de dormir Deuter Atmosphere 750

Arthur foi quem utilizou este saco de dormir, já que o meu não chegou a tempo. Parece que este equipamento compequeno volume e apenas 1.2250 gr de duvet substituiu bem o meu saco de enchimento sintético com 2,5 kg pois Arthur não reclamou de frio durante a noite em temperaturas em torno de -7 durante a noite.

 

*Ver: http://www.trilhaecia.com.br/artigos/graduacao-alpina-de-neve-e-gelo-explicada

Um comentário em “Relatório de viagem – Peru 2010”

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